Crítica | Planeta dos Macacos – A origem

A saga Planeta dos Macacos iniciou-se em 1968 e teve, posteriormente, quatro continuações, uma série de televisão, um desenho animado, histórias em quadrinhos e uma refilmagem equivocada realizada por Tim Burton em 2001. Exatos 10 anos depois, somos novamente apresentados a essa história que sempre encanta o público, seja pela eventual inversão de papéis entre dominador e dominado como pelo fascínio que estes animais, tão próximos e ao mesmo tempo tão distantes, provocam no ser humano.

Dirigido por Rupert Wyatt – que anteriormente havia feito somente o filme de prisão A Escapada (2008) – Planeta dos Macacos: A Origem, reconta a história de A Conquista do Planeta dos Macacos, de 1972, no qual o chimpanzé César comandava uma revolução contra os humanos. Se na saga original discutia-se a ameaça atômica e o belicismo exagerado, aqui a bola da vez é a manipulação genética e algumas (rasas) questões éticas pertinentes ao assunto.

Ao contrário do original dos anos 70, no qual o jovem chimpanzé era filho dos macacos Cornélius e Zira, vindos do futuro, neste o líder dos macacos é fruto de uma experiência conduzida pelo cientista Will Rodman (James Franco) em busca da cura para a doença de Alzheimer, que também acomete seu pai (John Lithgow). Após um incidente trágico, o personagem de James Franco leva para casa o único sobrevivente de uma série de pesquisas com animais, o pequeno chimpanzé César. Logo ele percebe que César possui inteligência muito acima dos pares de sua espécie.

Criado por meio da técnica de captura de movimento (a mesma utilizada em King Kong, Avatar e no próximo Tintim), o macaco interpretado por Andy Serkis (o eterno Gollum da saga  Senhor dos Anéis) é  de longe o personagem mais complexo e fascinante do filme. Ao ser levado para um abrigo de animais, no qual é tratado de forma violenta e abusiva, é possível perceber toda a dor e a angústia de quem que não faz parte do universo humano e, ao mesmo tempo, resiste em ceder a seu lado animal e a se reconhecer como uma espécie pretensamente inferior. A interpretação de Andy Serkis é perfeita em traduzir estes sentimentos, resultando num dos momentos mais surpreendentes e culminantes do filme, quando este finalmente insurge-se contra aqueles que o maltratam.

Se a interpretação de Andy Serkis é um achado (assim como a dos outros atores que interpretam macacos), o mesmo não pode ser dito do elenco humano que, por conta do roteiro um tanto maniqueísta, não possui um desenvolvimento mais completo. Assim, o personagem de James Franco age ora de forma totalmente irresponsável e ora como um paladino dos direitos animais. Freida Pinto, de Quem quer ser um milionário, tem um papel inócuo, cuja única utilidade é questionar, de forma simplória,  o festival de asneiras conduzido pelo namorado ou marido ( o que também nunca é explicado pelo roteiro) . Os bons Brian Cox (X-men 2) e Tom Felton (criando aqui uma versão Draco Malfoy sem as crises de consciência) surgem como os donos do abrigo de animais que são cruéis simplesmente porque o são, e pronto. O único que realmente se destaca é John Lithgow (o assassino Trinity, de Dexter) que realmente comove como o músico que aos poucos vai se perdendo no deserto da doença de Alzheimer e consegue, por pouco tempo, sua dignidade de volta.

Os efeitos especiais criado pela Weta são um capítulo a parte. Embora em alguns momentos seja visível o efeito especial, mais uma vez eles surpreendem criando personagens cujas personalidades são captadas e compreendidas pela platéia apenas pelo olhar. E se o gorila do filme saiu direto da selva de King Kong, o orangotango Maurice, interpretado pela atriz Karin Konoval surpreende pela figura imponente, sábia e poderosa, assim como o caído macho-alfa interpretado pelo dublê Jay Caputo. O diretor Rupert Wyatt, ciente de que está lidando com uma saga admirada por diversas gerações, mostra ao mesmo tempo respeito por diversos cânones da obra original, mas não se furta a desenvolver um universo novo e fascinante no qual a estratégia, a inteligência e o desejo de liberdade tornam-se páreo real para revólveres e metralhadoras, como na sequencia clímax do filme, na qual os macacos enfrentam as forças humanas na Ponte Golden Gate, em São Francisco.

O filme está repleto de citações à saga original. Algumas são óbvias, como uma macaca chamar-se Cornelia e a famosa frase “Tire suas mãos nojentas de mim, seu macaco sujo”, dita por Charlton Heston no original de 1968. Há outras mais sutis (o personagem de Tom Felton chama-se Dodge Landon, o nome dos dois companheiros de Heston, um orangotango chamado Maurice, homenagem ao ator Maurice Evans, que fazia o Dr. Zaius, Heston aparece em cena do filme Agonia e Êxtase), e também uma referência direta à nave Ícarus, desaparecida no espaço durante o decorrer da história e que, imagina-se,  ressurgirá milhares de anos à frente em um planeta já dominado por macacos.

Adotando um tom convenientemente sóbrio e emotivo, o filme de Rupert Wyatt surpreende pela criação de diversas sequencias de ação impressionantes (a fuga do abrigo, as folhas das árvores caindo à passagem dos macacos, o ataque ao helicóptero), deixando o final aberto pronto para uma continuação. Mas o filme ficará marcado mesmo pela interpretação – e pelo olhar – de Andy Serkis como César. Em tempos de mais heróis fantasiados, bruxos adolescentes, crianças em busca de mistérios e piratas reciclando idéias, é curioso que a  emoção mais autêntica da temporada de blockbusters venha, justamente, de um macaco.

Observaçao: há uma importante cena adicional durante os créditos.

 

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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