Retrospectiva Star Wars: Uma Nova Esperança

Faltando pouco menos de um mês para o lançamento dos seis filmes da série Star Wars em blu-ray, iniciaremos esta semana no blog uma análise de cada um dos filmes, em ordem cronológica de lançamento. O primeiro é claro, é o clássico de 1977, Star Wars, que muitos conhecem hoje por Episódio IV: Um Nova Esperança. Até o dia 16 de setembro teremos todos os filmes comentados aqui no blog. Vamos lá, então:

Lançado em maio de 1977, o filme Star Wars foi uma surpresa não apenas para o público em geral, mas principalmente para a indústria cinematográfica. O que se via no filme, lançado timidamente em apenas 43 salas no país, era uma revolução em diversos aspectos. Tecnologicamente, a história dirigida por George Lucas estava anos-luz à frente de qualquer obra sequer imaginada àquela época. Se em 2001 as naves espaciais literalmente valsavam lentamente no espaço, em Star Wars o ritmo remetia diretamente a filmes de guerra, com dinâmicas batalhas espaciais de encher os olhos e uma narrativa muito próxima aos seriados dos anos 30 e 40, em especial à série de Flash Gordon, de onde Lucas se inspirou para os créditos de abertura que resumem a história.

Em termos mercadológicos, Star Wars oficializou o termo blockbuster, ou arrasa-quarteirão, o tipo de filme que concentra todas as atenções – e ingressos – do público em um determinado período. Desde este ano, o período de verão é sempre o mais aguardado pelo grandes estúdios para o lançamento de suas grandes apostas. Como exemplo, a Sony já marcou a data de estréia da continuação de O Espetacular Homem-Aranha para maio de 2014, sendo que o primeiro filme só estréia em 2012 .

Lucas ainda teve a visão de trocar parte de seu salário como diretor pelos direitos de comercialização dos personagens por ele criados. Assim cada action-figure, cada lancheira, quebra-cabeça, pôster, álbum de figurinhas ou caneta com a imagem de Star Wars renderia um determinado valor para o cineasta. Sem sequer imaginar onde isso iria parar, a Fox não titubeou e liberou os direitos para Mr. Lucas, que transformou-se, de uma hora para outra, no cineasta mais bem pago do mundo. Até hoje.

Mas é preciso lembrar que Star Wars não era uma aposta certa, nem por parte de Lucas e muito menos por parte dos produtores. Quando viram nas filmagens um cachorro gigante que não falava, bonecos fantasiados cantando numa cantina e um robô amarelo com trejeitos efeminados, nem a presença dos veteranos Sir Alec Guinnes e Peter Cushing deixou os produtores calmos. Avaliando-se nos dias de hoje, Star Wars poderia ter sido um grande e datado fiasco – assim como diversos filmes feitos no mesmo período – , mas graças a fatores que se unem poucas vezes na história, o resultado foi justamente o contrário.

Parte disso deve-se a já mencionada capacidade de Lucas em aglutinar estilos narrativos, referências e homenagens e ainda assim sair com algo novo e diferente, sem o  cheiro de requentado. Há no filme citações diretas ao clássico de John Ford, Rastros de Ódio, assim como a filmes de Kurosawa como Yojimbo e A Fortaleza Escondida. E há, claro, a história clássica do jovem herói que parte em busca de seu destino com a ajuda de seus companheiros e de um mentor e que passa por diversos conflitos até amadurecer e encontrar sua verdadeira identidade.

O filme contava com um elenco principal parcialmente desconhecido. Harrison Ford participara de Loucuras de Verão e encarnava com perfeição o então cafajeste Han Solo (e sim, ele atirou primeiro) e Carrie Fisher, que era conhecida apenas como filha de Debbie Reynolds, passava com firmeza a delicadeza de um princesa e a determinação de uma líder rebelde. Já Mark Hammil, como o jovem Luke Skywalker (ótimo nome, esse), traduzia perfeitamente a ansiedade do jovem recém saído da adolescência com a fascinação por aquele universo novo que se apresentava, no qual você podia voar em sua nave, acertar os seus inimigos como em um vídeo game e ainda ganhar o reconhecimento de todos.

Neste primeiro filme, é curioso notar como o personagem de Darth Vader (vozeirão de James Earl Jones e corpo de David Prowse) tinha uma função apenas complementar, sendo apresentado apenas como o capanga de luxo do Governador Tarkin e sendo citado muito aleatoriamente por Obi-Wan Kenobi como um antigo desafeto. Não havia aqui, ainda, toda a complexidade histórica e temática apresentada em O Império Contra-Ataca. Isso se deve ao fato de que Lucas nunca foi um grande diretor de atores e muito menos um excelente roteirista – mas um grande contador de histórias e um grande gestor de projetos.

Para realizar o filme da maneira como desejava, Lucas cercou-se de técnicos, engenheiros e artistas notáveis, que desenvolveram novos equipamentos e novas técnicas de filmagem, sem as quais não seria possível levar para as telas a visão inovadora do cineasta. Para a parte musical, uma de suas melhores escolhas foi a participação do maestro John Williams. Se nos anos 70 todos esperavam uma trilha eletrônica, Williams veio com temas clássicos pesados, muita força nos metais nas cenas de ação e a delicadeza as cordas e sopros nos momentos climáticos. E, claro, um tema principal matador, reconhecido até por quem – se é que existe – nunca viu os filmes.

Star Wars teve, ainda, um papel fundamental no que existe hoje no cinema. É correto afirmar que boa parte das produções que temos hoje entre as maiores bilheterias do mundo provavelmente não existiriam se não fosse pelo filme. Graças a Star Wars, George Lucas permitiu a Spielberg se recuperar do fiasco de 1941 e dirigir Caçadores da Arca Perdida. Star Trek não teria voltado às telas se não fosse por Star Wars. Grandes cineastas como James Cameron, Peter Jackson, Sam Raimi e outros afirmam que foi a primeira cena de Star Wars – aquela magnífica imagem do Star Destroyer avançando em direção a uma pequena nave – que os inspirou a fazer ou a continuar no cinema. E há, é claro, a Industrial Light and Magic, a empresa de efeitos especiais de George Lucas, que permitiu a realização de filmes que vão desde Harry Potter até Piratas do Caribe.

Nada disso, porém, passava na cabeça de George Lucas em meados de 1977. Conta a lenda que Lucas passou o filme para seus amigos cineastas (Spielberg, Scorcese, Brian de Palma) antes da estréia e todos fizeram aquela cara de muxoxo, com exceção de Spielberg, um dos cineastas que entende o que o público deseja como ninguém. Ele sabia que Star Wars era o filme certo na hora certa. Uma celebração da juventude e do espírito transgressor (nada melhor que lutar contra um império do mal) que encontrou ressonância em milhares de pessoas ao redor do mundo. A tacada de gênio que transformou Star Wars na quase religião que é hoje, porém, ainda não havia sido dada. E isso é conversa para o próximo artigo.

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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