Crítica | Precisamos Falar sobre o Kevin *****

Kevin é um garoto muito inteligente.

Assim como toda criança, Kevin sabe como manipular seus pais para conseguir o que deseja. Quando necessário, os desafia até o limite, apenas para vê-los ceder a seus mandos e desmandos.

Kevin é um garoto difícil.

Mesmo aos sete ou oito anos de idade, Kevin ainda usa fraldas, o que obriga seus pais a viverem em eterno estado de atenção às necessidades do garoto. Desde pequeno, sua mãe sempre teve dificuldades em se relacionar com ele, muito por conta do gênio irascível do garoto.

Kevin é um sociopata.

Sem qualquer noção de sentimento ou remorso, Kevin é capaz dos atos mais cruéis sem transparecer o menor arrependimento. Incapaz de se relacionar com qualquer pessoa, todas as suas interações sociais não passam de encenações.

Kevin é, também,  um assassino.

Por conta do crime que cometeu, sua mãe vive hoje sozinha em uma pequena casa no subúrbio, escondida da sociedade, envergonhada dos atos de seu filho e remoendo o passado em busca de alguma resposta. É nesta situação que encontramos a personagem de Tilda Swinton (não por acaso chamada de Eva) no início do excelente Precisamos Falar sobre o Kevin, filme baseado na obra homônima de Lionel Shriver. Física e psicologicamente arrasada, Eva transita pela cidade como um fantasma ambulante, olhando por todos os cantos e evitando qualquer contato, mesmo visual, com outras pessoas. Ao esboçar um mínimo sorriso por conseguir um emprego, ela logo é agredida por parentes das vítimas de seu filho. Neste momento, não sabemos ainda qual o crime que Kevin cometeu, mas imaginamos ser grande o bastante para destroçar não apenas uma, mas várias famílias.

Buscando, quem sabe, uma explicação para o que aconteceu, Eva começa a relembrar sua vida, desde o casamento, passando pelo nascimento de seu filho e por todas as dificuldades enfrentadas ao longo dos anos, talvez tentando entender em que momento seu filho passou do estágio de criança difícil para adolescente assassino. A resposta, porém, não vem de forma fácil, assim como não é fácil encarar seu filho na cadeia, longe de todos os sonhos e realizações intimamente planejadas para ele.

O filme retrata especificamente as lembranças de Eva. Assim, o que temos na tela pode não ser exatamente o que aconteceu, mas o seu ponto de vista, os seus fragmentos de memória amplificados pela dor e pelo sofrimento, que se iniciam numa nítida depressão pré e pós-parto, retratada na vergonha de seu próprio corpo de grávida e pelo momento no qual o barulho de uma britadeira no meio da rua é mais confortante do que o choro da criança. Para Eva, seu filho não é uma benção, mas um fardo para o qual ela não encontra descanso. Ela o ama, mas é incapaz de demonstrar esse amor de forma efetiva e verdadeira. Em certos momentos, não faltam palavras depreciativas ao garoto.

Não tarda, claro, para que essa relação passe a ser extremamente dolorosa e competitiva, situação essa ampliada pelo comportamento errático de Kevin, que desde cedo manifesta sua sociopatia, manipulando o pai (que demora anos a perceber que há algo de errado com o filho) e intimidando a mãe com sua frieza e gestos calculados. Um dos momentos mais emblemáticos do filme é quando Eva pergunta a Kevin se este não deseja deixar seu quarto mais com sua cara, com sua personalidade, ao que o garoto questiona ‘qual personalidade ?’.

A diretora Lynne Ramsey demonstra uma firmeza de veterana na condução do filme, tirando uma interpretação visceral da sempre competente Tilda Swinton, que traduz de forma cortante tanto a dor do desencontro emocional com seu filho como sua transformação dolorosa em uma figura insegura e sem esperança. Trabalhando com a inserção constante de elementos vermelhos em cena (a Tomatina na Espanha, a prateleira de molho de tomate, as roupas de Kevin) a diretora não poupa sutilezas para demonstrar a fatalidade da relação de Eva e seu filho.

Ainda assim, não há como evitar certo desconforto na interpretação de Jasper Newell como o jovem Kevin, beirando o exagero e forçando um pouco demais no fator ‘maldade’. Mas, novamente, este exagero pode ser justamente a visão de Eva sobre Kevin, na tentativa de justificar o injustificável, eliminando um pouco a sua própria culpa. Já a interpretação de Ezra Miller como Kevin adolescente consegue transmitir a raiva, a intolerância e a rebeldia de um jovem problemático, mas sem transparecer o perfil de assassino que iremos conhecer mais tarde. Talvez resida aí o grande horror da história, do ponto de vista de Eva: o perfil assassino de Kevin é fruto de sua própria mente ou é culpa da omissão dos pais? E mais, em que ponto está a fronteira entre o simples comportamento rebelde e a pura crueldade?

Por serem somente as lembranças de Eva, jamais sabemos do comportamento de Kevin fora de casa. Não sabemos se ele sofre bullying na escola, quais são seus amigos, seus gostos ou suas manias. O que sabemos é que, a partir de certo ponto, Kevin assume para sua mãe que jamais haverá uma relação normal entre eles, e que seu comportamento com os outros, especialmente com seu pai, será apenas uma fachada social. No papel do pai, John C. Reilly, retornando para os papéis sérios, retrata claramente o papel do pai que, ingenuamente, relega a educação do filho à esposa e que é incapaz de ver os problemas que acontecem dentro de sua casa. A relação entre casal, aos poucos, vai se esvaindo por conta da desconfiança, da mágoa e da cegueira em relação ao filho real e o filho idealizado.  O título do filme é, afinal, justamente aquilo que nunca aconteceu na vida do casal.

Ao longo do filme, a diretora joga diversos detalhes que poderiam – ou não – ser responsáveis pelo comportamento de Kevin. Assim, se aos 3 anos ele joga um videogame de tiro com seu pai, mais tarde ele ganha um arco e flecha para praticar no jardim de sua casa. Do mesmo modo, em um determinado momento no qual sua mãe o machuca sem intenção, Kevin vê ali uma oportunidade para garantir ainda mais seu poder sobre ela. Quando chega o momento de conhecermos o motivo de toda a dor de Eva, não há um fato especial ou um elemento que desencadeie a tragédia. Para Kevin, aquilo é apenas a conclusão espetacular e teatral de toda a sua vida.

É um filme para o qual não há respostas. Eva, assim como qualquer mãe nesta situação faria, busca encontrar algo que a conforte, que tire sua culpa profundamente internalizada e que a faça entender porque o filho que ela criou tornou-se aquela criatura fria e violenta. Esta redenção jamais chega.  Há, porém, um único momento no filme em que Kevin olha com algum sentimento para sua mãe. Nesse instante, porém, já não há mais o que resgatar. Quando Kevin diz que ‘jamais foi feliz’ em sua vida, sabemos que quem mais perdeu nisso tudo foi Eva, pois ela já conheceu o que é a felicidade. E sabe que essa jamais voltará.

5/5

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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Comentários
  1. 1 / 18 / 2012 17:35

    Legal que a história que Eva conta para Kevin na cama, o único momento de cumplicidade dos dois, fora o final, ela está lendo uma história sobre… arco e flecha. Irresistível. No final, Kevin deixou viva a única pessoa que o conhecia verdadeiramente: sua mãe. Portanto, a pergunta dela no final é sensacional: “por que?”.

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  2. Vanessa

    1 / 23 / 2012 0:21

    Eu me lembrei muito da Medéia ( tragédia grega), essa coisa de matar aquilo que te ama só para te fazer sofrer… e fico pensando que seja por isso que ele a poupou!

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  3. Ju

    1 / 31 / 2012 11:28

    Não é um “trote na faculdade”, a Eva no meio dos tomates é a festa da celebraçao da colheita do tomate na Espanha, a Tomatina.

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  4. 2 / 1 / 2012 14:51

    Love the blog

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