Crítica | A Dama de Ferro
De acordo com a Wikipedia, esta é a biografia resumida de Margaret Thatcher:
“Nascida Margaret Roberts na localidade de Grantham, em Lincolnshire, Inglaterra Thatcher estudou ciências químicas na Universidade de Oxford antes de se qualificar como barrister. Nas eleições gerais de 1959 no Reino Unido ela foi eleita parlamentar pela região de Finchley. Edward Heath nomeou Thatcher secretária do Departamento de Educação e Habilidades em seu governo de 1970. Em 1975 ela foi eleita líder do Partido Conservador, sendo a primeira mulher a liderar um dos principais partidos do Reino Unido, e em 1979 ela se tornou a primeira mulher a ser primeira-ministra do Reino Unido.”
Descontando as simplificações colegiais e os erros de construção do parágrafo acima, é provável que você consiga mais informações sobre Margaret Thatcher por este primeiro parágrafo de sua biografia na Wikipedia do que pelo filme dirigido por Phyllida Loyd (que já havia cometido a atrocidade chamada Mamma Mia). A Dama de Ferro consegue a triste façanha de fazer com que o espectador que não tenha conhecimento de quem foi Thatcher – e que está vendo o filme apenas porque Meryl Streep está nele – saia do cinema se perguntando: o que esta mulher tinha de especial para que merecesse uma cinebiografia?
O essencial em qualquer obra deste gênero é que o espectador consiga compreender qual a importância do biografado dentro do momento histórico retratado em cena ou, ao menos, como ele influenciou aqueles a seu redor. Pois, em A Dama de Ferro, a diretora Loyd, com uma ajuda fundamental da roteirista Abi Morgan (que curiosamente escreveu o ótimo Shame, com Michael Fassbender), é incapaz de estabelecer sua personagem como uma das mais importantes e polêmicas figuras políticas da segunda metade do século XX. Pelo que é visto no filme, é impossível entender como aquela mulher chegou aonde chegou.
Muito deste fracasso se deve a um problema estrutural irremediável: partindo da rotina atual de uma envelhecida e demente Margareth Thatcher, o filme se define por meio de constantes flashbacks entremeados por repetidas e entediantes conversas da velha senhora com seu falecido marido – interpretado com a boa vontade de sempre por Jim Broadbent. Se essa estrutura até se revela interessante como proposta dramática (a mulher imponente agora transformada em uma figura digna de pena), a falta de sutileza da diretora e o roteiro episódico impedem qualquer tipo de envolvimento e compreensão do espectador.
Com uma direção beirando a histeria, Phyllida Loyd parte da cartilha maniqueísta (e feminista) mais antiquada possível para transformar Margaret Thatcher em uma mulher sempre em luta contra o sistema e na batalha para prevalecer em um ambiente masculino. Isso, claro, é fato. Thatcher foi, e é até hoje, a única mulher a se eleger primeira-ministra da Inglaterra, e sua posição de liderança no majoritariamente masculino Parlamento Inglês são feitos admiráveis. Phyllida Loyd, porém, acredita que esse conflito seja não seja apenas o tema principal de sua cinebiografia, mas o motivo de sua existência.
Assim, somos bombardeados com várias e várias sequencias que mostram Margareth Thatcher cercada por parlamentares ou auxiliares com ternos de tom cinza que formam uma massa masculina inimiga, realçada por closes de homens gargalhando ou filmados com a famosa lente olho de peixe, para torná-los ainda mais opressores. Essa composição vai se repetir diversas vezes ao longo do filme, tornando a mensagem proposta pela diretora irritantemente forçada. Do mesmo modo, é pobremente óbvia a transformação de Thatcher de mulher idealista a política fascinada pelo poder, com a mudança do tom de seus casacos e tailleurs de um azul piscina para um vermelho berrante. O mesmo se pode dizer da sequencia em que, provavelmente em cima de um par de patins, Thatcher é mostrada se afastando cada vez mais de sua equipe – masculina claro. Nem mesmo as cenas em que ela fica sozinha – isso, o poder isola – no parlamento ou em sua sala de reuniões ficaram de fora.
Tentando desesperadamente se posicionar como O Discurso do Rei (outro filme que sofria pela falta de sutileza de seu diretor) deste ano, A Dama de Ferro não se envergonha sequer de inserir uma cena que nada mais é do que uma cópia das famosas sessões de oratória do filme sobre o rei gago, desta vez com Thatcher treinando para deixar sua voz menos aguda e mais incisiva. E com o objetivo de mostrar a importância de cada fala de sua personagem, a diretora faz questão de sempre (sempre mesmo) aproximar vagarosamente sua câmera do rosto de Meryl Streep enquanto a música triunfalista vai subindo cada vez mais. Como tudo no filme, uma vez até passa. E tem mais. Para mostrar que Margareth realmente sacrificou tudo para chegar ao poder, não há como deixar passar a constrangedora cena em que, ao ser eleita para o parlamento, ela sai de casa e deixa seus filhos para trás, batendo no vidro do carro e ao som de ‘mamãe não vá, mamãe não vá’. Nem novela mexicana chega a tanto.
A já falada estrutura episódica não consegue contextualizar nenhum momento da história da líder política. Assim, somos informados de sua eleição ao parlamento, de seu cargo como ministra da educação, mas jamais entendemos como ela chegou nessas posições. Mesmo fatos importantes como a Guerra das Malvinas – que literalmente salvou sua pele e lhe garantiu um novo mandato – e o ataque à sua residência pelo Exército Republicano Irlandês, o IRA, são tratados de forma superficial. Nada bate, porém, a maneira como é mostrada sua relação com os outros líderes mundiais, como Ronald Reagan e Nelson Mandela, vistos em cenas de valsa enquanto seu marido olha com orgulho e brinda a estes belos momentos.
Utilizando de forma irregular imagens de época, o filme até tem uma produção caprichada e uma fotografia convenientemente austera. Tudo isso, porém, está à serviço de um filme que só se sustenta – pelo menos – pelo talento incomensurável de Meryl Streep. Trabalhando, na maior parte do filme, por baixo de uma forte (e perfeita) maquiagem – aprenda com eles, Clint – Streep faz o que pode em um papel ingrato – uma refém de falas de livros de autoajuda. Ainda assim, é sempre uma delícia admirar o trabalho cuidadoso dessa atriz – e chega a ser fascinante perceber a diferença de seu discurso no Parlamento, inicialmente como uma política inexperiente e depois como a líder de uma nação. Da mesma forma, é tocante sua compreensão dos primeiros sinais de demência, após uma discussão forte com sua equipe, assim como sua composição como a idosa com lampejos da antiga genialidade, mas irremediavelmente perdida para a doença. É uma pena, portanto, que esse talento esteja nas mãos de uma diretora tão caótica e sem o menor entendimento do material com o qual estava lidando.
O que fica, ao fim de A Dama de Ferro, é mesmo a história da velhinha ranzinza que conversa com o falecido – e divertido – marido. O que ela fez antes disso, infelizmente, não importa muito. Mas deveria.
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2 / 18 / 2012 17:01
Totalmente de acordo com a critica. Só Streep se salva. A dama de ferro nao merecia isto.
2 / 19 / 2012 23:33
Verdade, Marcio, fica parecendo que Thatcher só merece destaque por ser uma mulher no meio de homens. O filme só não ficou no poderia ter sido, porque Meryl Streep dá um banho.
2 / 24 / 2012 17:02
Cartilha feminista e preconceituosa até no padrão feminino (como mostra o bullying que as mulheres praticavam em Margaret. Isso mesmo, BULLING!). Uma narrativa horrorosa de uma diretora idem. Nem Streep (que está ótima) consegue salvar o desastre. Lembro de uma entrevista em que perguntaram para Harvey Wenstein: “E A Dama de Ferro?”. Qual foi a resposta dele? “Esqueçam esse filme!”. É, ele estava certo.
3 / 6 / 2012 16:27
Faltou ao filme ousadia em tentar mostrar as decisões da Dama de Ferro, concordando ou não com suas decisões polêmicas, o filme acabou se tornando uma pequena história de uma mulher que tenta não esquecer o passado ao mesmo tempo que não consegue mais saber onde esta.
O filme seria melhor se fosse apenas uma comédia sobre uma velhinha que tem alucinações, mas o filme ainda vale para ver Meryl Streep em exuberante performance.
Abraços