Crítica | As Mulheres do 6º Andar

Jean-Louis Joubert tem uma vida sem percalços. Casado com sua elegante e refinada esposa Suzanne, tem sua rotina organizada entre seu trabalho como corretor na bolsa de valores e seu apartamento de classe média-alta em Paris. Pai de dois garotos, Jean-Louis pode até não perceber, mas tem uma vidinha bem chata. Metódico, exige que seu ovo matinal seja cozido no tempo exato, caso contrário sua refeição e seu dia serão prejudicados de forma irreversível. Após a morte da mãe, Jean-Louis tem de lidar com os desejos e anseios da esposa, que finalmente tem a oportunidade de se posicionar como a efetiva dona da casa. Para mostrar quem realmente manda,  sua primeira atitude é demitir a antiga empregada e contratar uma nova que possa fazer as coisas do seu jeito. Assim começa a história do divertido As Mulheres do 6º Andar, comédia de costumes francesa que chega ao Brasil com quase dois anos de atraso do seu lançamento original.

O filme é ambientado no ano de 1962, período em que a França recebeu um grande número de espanholas fugidas do regime autoritário do General Franco. Trabalhando como empregadas domésticas, estas mulheres ocupavam normalmente o sexto andar dos prédios da cidade de Paris, vivendo em condições extremamente irregulares, sem água corrente, com apenas um banheiro e apertando-se em pequenos quartinhos sem ventilação. Qualquer semelhança com alguma situação conhecida não é mera coincidência.

Apesar de todos estes percalços, as empregadas espanholas são um exemplo de perseverança e alegria, sempre bem-humoradas (mesmo quando são contrariadas) e com a eterna esperança de um dia retornar a seu país e àqueles que lá ficaram. Ao conhecer a nova empregada Maria (a atriz argentina Natalia Verbeke), Jean-Louis (Fabrice Luchini, de Potiche – Esposa Troféu) fica imediatamente fascinado com esse lado jovial e inquieto das espanholas, um contraponto extremo à atitude virtualmente blasé de sua esposa e amigas.

Não demora para que Jean-Louis resolva ajudar as empregadas – o que vai desde desentupir o banheiro coletivo até permitir que uma delas ligue para a Espanha para saber como está o sobrinho recém-nascido. Toda essa fascinação, obviamente, acabará por transformar-se em uma curiosa paixão platônica pela bela e jovem Maria, o que irá causar uma série de problemas não apenas para Jean-Louis, mas para toda a sua família.

Escrito e dirigido por Philippe Le Guay, As Mulheres do 6º Andar não foge de traçar um retrato estereotipado tanto das mulheres francesas como das espanholas, as primeiras vistas como frias e superficiais e as últimas como sempre compreensivas e complacentes. Esta opção, porém, serve perfeitamente aos objetivos do longa, e está longe, por exemplo, do exagero caricato mostrado em filmes como Histórias Cruzadas, por exemplo. Contando com um elenco não menos que fenomenal – no qual o destaque vai para Carmen Maura e Lola Duenãs, duas atrizes constantes da filmografia de Pedro Almodóvar – o diretor Le Guay constrói um curioso painel de situações específicas de cada uma das empregadas.  Assim, temos a história da mulher que perdeu toda sua família nos conflitos na Espanha, a que apanha do marido, a que deseja retornar para sua cidade e terminar a reforma de sua casa – histórias interessantes que, por conta do pouco tempo, não são devidamente desenvolvidas ao longo da trama.

O que fica realmente do filme é a história de Jean-Louis, cuja vida sofre uma reviravolta completa ao envolver-se cada vez mais com as espanholas e seus costumes. E se essa mudança de comportamento de Jean-Louis pode até parecer um tanto apressada e forçada, não é difícil entender, porém, o porquê de sua fascinação pelas espanholas e pela sensível Maria, que, por questões pessoais de seu passado, mantém-se a uma distância segura por boa parte do filme, mas que, aos poucos, também vai se envolvendo com este seu novo e curioso patrão. E quando, ao fim do filme, trocamos os ambientes fechados dos apartamentos burocráticos franceses pelo sol das terras espanholas, não há como negar que Jean-Paul estava mesmo fazendo a coisa certa.

3/5

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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