Crítica | Filha do Mal

De todos os famigerados filmes produzidos nos últimos anos seguindo o estilo de filme recuperado, Filha do Mal é com certeza o pior e o mais picareta exemplar de todos, conseguindo, em comparação, transformar Apollo 18 no 2001: Uma Odisséia no Espaço do gênero (ok, a comparação foi para lá de exagerada, mas é só para você ter ideia do nível de mediocridade atingido por este filme).

Como sempre acontece, a premissa inicial de Filha do Mal é até interessante. Tudo começa em 1989, quando a polícia atende um chamado no qual uma mulher afirma ter assassinado três pessoas. Como devia ser bastante comum na década de 80, a equipe chega ao local do crime filmando tudo em detalhes, descobrindo, então, que as vítimas são dois padres e uma freira. Considerada mentalmente incapaz, a mulher (Susan Crowley) é enviada a um hospital psiquiátrico e posteriormente a um manicômio na Itália. Vinte anos depois, sua filha Isabela (a brasileira Fernanda Andrade) resolve investigar por conta própria o que existe por trás dos assassinatos, supostamente ocorridos durante uma sessão de exorcismo. Ao invés de simplesmente viajar para a Itália e visitar sua mãe – o que qualquer pessoa normal faria – ela resolve fazer um documentário, contratando o cinegrafista de oito braços Michael (Ionut Grama) que irá acompanhá-la nesta emocionante aventura.

Ao chegar a Roma, Isabela resolve passear pelo Vaticano e entra despreocupadamente com seu cinegrafista de oito braços na sala onde ocorre a aula de Exorcismo I, no qual um padre apresenta para seus alunos os diversos tipos de demônios existentes e quais as evidências que podem identificá-los, momento este em que o diretor sutilmente indica tudo o que vai acontecer no decorrer da história sem que você precise prestar muita atenção (ou seja, quando alguém disser que os demônios podem pular de uma pessoa para outra, não fique assustado se isso acontecer ao longo da projeção). Após a aula, no horário do happy-hour e antes da aula de Exorcismo Aplicado II, Isabela conhece dois religiosos, o padre Ben (Simon Quarterman) e o padre David (Evan Helmuth), exorcistas profissionais que se interessam por sua história e decidem ajudá-la a descobrir se sua mãe tem mesmo parte com o tinhoso ou é apenas ruim da cabeça.

Apesar de não ver sua mãe há mais de 20 anos, Isabela não se importa de visitá-la na companhia de seu cinegrafista de oito braços apenas para confirmar que ela efetivamente está mancomunada com o demo. Os dois padres do parágrafo anterior resolvem, então, ajudar a jovem Isabela e, para isso, levam-na para testemunhar um exorcismo verdadeiro, provavelmente parte do Circuito Turístico 666 de Roma. E mesmo afirmando que o que fazem é contra as normas do Vaticano, os dois padres não se importam em ser filmados, assim como a mãe da menina possuída, que deixa Isabela e seu cinegrafista entrarem em casa sem quaisquer problemas, provavelmente já sabendo que pessoas que fazem documentários sobre exorcismos dificilmente sobrevivem até o fim da semana.

Incapaz de criar cenas minimamente verossímeis (sim, até filmes de terror precisam disso),o roteirista e diretor William Brent Bell (fiquem de olho nesse nome, ele pode voltar a qualquer instante, que nem a Bloody Mary no espelho) engata a partir daí uma série de sequencias sem a menor lógica ou coerência. Embora jamais tivesse visto um exorcismo de verdade, Isabela é incapaz de esboçar a menor reação ao ver a menina possuída se contorcer de forma anormal no porão da casa. A falta de cuidado com a produção chega ao seu ponto máximo quando percebemos que o diretor não se preocupa em utilizar pelo menos cinco ângulos de filmagem diferentes, mesmo sendo apenas um cinegrafista. Daí a minha teoria do homem de oito braços, porque só assim para alguém conseguir captar tantas imagens de tantos ângulos diversos. E mesmo que, posteriormente, o filme tente explicar essa questão, fica óbvio que ninguém se preocupou muito com isso durante a produção.

Tentando criar um clima supostamente sombrio para o filme, o diretor Bell ainda insere aqui e ali momentos que deveriam ser misteriosos, como pessoas estranhas conversando no hospício (oh!)  e uma aflitiva freira cega (sempre tem uma) que encara a nossa protagonista. A falta de uma trama com mais substância porém, faz com que mais da metade do filme seja recheada de diálogos expositivos e didáticos (como o que diz que pupilas dilatadas não são apenas sintomas de vício em drogas, mas de possessão demoníaca também) e até momentos de reflexão por parte dos personagens, chegando num ponto em que até o cinegrafista começa a confessar os seus problemas para a câmera. Isso porém, não chega aos pés do comportamento histérico de todo o elenco, que parece estranhamente atuar o tempo todo com as pupilas dilatadas. Hum…

Afirmando em seus créditos iniciais que o Vaticano não aprova o filme e nem ajudou em sua realização (um fato muito triste, pois todos sabem que o Papa é um dos maiores investidores em filmes de possessão demoníaca), Filha do Mal consegue ainda a façanha de ter a pior conclusão imaginável, dando a nítida impressão de que os realizadores tiveram uma crise de pânico e resolveram ir embora de Roma sem terminar a filmagem e sem pagar as contas do hotel. Neste caso, o título original do filme, Devil Inside, aplica-se com perfeição não apenas à conclusão, mas a todo o filme, pois só alguém com espírito de porco para fazer uma lambança dessas.

 

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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Comentários
  1. Ana

    2 / 4 / 2012 20:14

    Concordo plenamente…filme medíocre!

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  2. 2 / 4 / 2012 20:32

    Ah, ah, ah… Foi o comentário mais divertido que já li! Não vi o filme, nem pretendia, mas me diverti muito com a crítica. Além de viciado em cinema, já sou viciado em ler as críticas do Marcio Santos, sempre muito boas!

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    • 2 / 4 / 2012 21:24

      Valeu Tomás. Mas este aqui realmente não dá pra considerar nem como opçao trash para se divertir. É ruim mesmo.

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  3. 2 / 5 / 2012 21:06

    Muito boa critica, filme é ruim mesmo, nem perdi meu tempo em ve-lo

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  4. Reginaldo Queiroz

    2 / 6 / 2012 0:28

    …..KKKKK……. show de crítica…. super divertida e ao mesmo tempo muito séria e correta… o filme é triste e tosco ao mesmo tempo…. mas não pela morte de todos no final (pronto falei !), mas por toda a produção pobre e porque não dizer medonha também….. kkkkkk…… a parte da critica que se refere ao “tinhoso”…. ainda me causa risos….. é uma pena que não tenha lido essa crítica antes de gastar meu rico e suado dinheirinho numa sessão de sábado à noite… podia ter ficado em casa vendo o Supercine na Globo que era de graça e monos tinhoso…kkkk !

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    • 2 / 6 / 2012 0:43

      Valeu, Reginaldo. Eu não vejo problema na produção pobre (A Bruxa de Blair – que eu adoro – os caras devem ter feito em 3 dias), a questão mesmo é a falta de um roteiro decente e a preguiça de desenvolver uma história melhor. Se fosse ruim que nem Apollo 18 (que até dava pra assistir) ou 11-11-11 (que é divertido de tão ruim), ainda passava. Esse não tem jeito mesmo!

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  5. 2 / 14 / 2012 18:00

    o filme 11-11-11 e real mente ruim kk ? pow tavo querendo ve se um carinha descolava um pra mim por 10 reais agr acho que vou desisiti

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