Crítica | O Homem que Mudou o Jogo

Particularmente, entender o funcionamento e as regras de um jogo de beisebol é tão ou mais intrigante quanto entender a excitação dos fãs durante uma partida de curling, aquele jogo estilo bocha no qual os jogadores vão limpado o caminho por meio de pequenos esfregões (ou algo parecido). Felizmente, O Homem que Mudou o Jogo utiliza o tradicional jogo americano apenas como pano de fundo para uma história verídica que, embora se baseie um dos mais consagrados gêneros do cinema – o do líder que, por meio de métodos não-ortodoxos consegue levar o time de segunda categoria ao sucesso – se estabelece como um obra diferenciada por um ter um roteiro afiado e certeiro e por interpretações acima da média.

Escrito por dois dos mais competentes roteiristas do momento, Steve Zaillian (A Lista de Schindler, Os Homens que Não Amavam as Mulheres) e Aaron Sorkin (A Rede Social e a série para televisão West Wing), O Homem que Mudou o Jogo conta a história de Billy Beane, ex-jogador e atual gerente do time Oakland Athletics, time de orçamento reduzido que não consegue contratar atletas de peso e que constantemente perde seus talentos para os times mais ricos. Um dia, durante uma negociação, conhece o jovem Peter Brand, que lhe propõe uma nova metodologia para a contratação e o treinamento de seus atletas, baseado no estudo de estatísticas de jogos, atuações e resultados. Matemática, pura e simples.

É claro que esta nova metodologia não é prontamente aceita pelos veteranos olheiros do time, que acreditam que vale muito mais a experiência de anos contratando e selecionando atletas do que a estratégia baseada em planilhas proposta por Beane. Para piorar, Peter Brand (Jonah Hill, fazendo um trabalho surpreendente) é exatamente o oposto do que se espera em um expert de recrutamento: gordinho, sem experiência em esportes, com um certo ar de arrogância e centrado unicamente em suas tarefas. Não ajuda ainda o fato de que os primeiros resultados baseados na nova estratégia mostram-se catastróficos, situação essa piorada pela total má-vontade do treinador (Phillip Seymour Hoffman), que evita seguir as orientações de Beane.

Mostrando Beane como um homem tão comprometido e apaixonado por seu trabalho que não assiste aos jogos de seu time para evitar qualquer tipo de emoção, Brad Pitt obtém aqui uma de suas melhores e mais sutis composições, transformando o ex-jogador em um homem obstinado que precisa acreditar em sua nova metodologia, não apenas para conseguir impor a mesma a seus colaboradores, mas também para justificar o nítido sacrifício feito ao longo da vida – contando aí um casamento desfeito e uma filha adorável – por conta de sua dedicação ao beisebol. A direção de Bennet Miller (de Capote) consegue escapar das armadilhas do gênero mesmo quando o time começa a ganhar jogos consecutivos, estabelecendo um novo recorde de vitórias dentro do campeonato americano.

O roteiro engenhoso de Zaillian e Sorkin é hábil também em mostrar o lado das negociações do esporte. Fazendo juz ao título original (Moneyball), o filme tem pelo menos uma sequencia memorável, quando, por conta de seu conhecimento adquirido a partir das informações de Peter Brand, Beane negocia – a partir de seu pequeno escritório forrado de livros – com pelo menos três times ao mesmo tempo, jogando com informações de bastidores, históricos de contusões, fofocas e resultados, manipulando de forma engenhosa todos os envolvidos para obter os resultados que deseja. E, tratando o time como uma verdadeira empresa, Beane não tem pudores em mandar jogadores embora ou negociá-los com o objetivo óbvio de melhorar seus resultados.

Estabelecendo-se como um competente estudo sobre a ética nos esportes, sobre a quebra de paradigmas consolidados, sobre o eterno embate entre a experiência e a tecnologia, O Homem que Mudou o Jogo não escolhe lados nem determina o que é melhor para um resultado de qualidade. O que fica, mesmo, é a história de um homem que entende como funciona a paixão dentro do esporte (seja ele beisebol, futebol ou golfe), mas que sabe que não se pode viver eternamente apaixonado. É preciso também compreender os mecanismos desta paixão.

 

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Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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