Crítica | Star Wars: Episódio I – A Ameaça Fantasma 3D

Minha esperança, ao assistir à Star Wars : Episódio I – A Ameaça Fantasma 3D , era que George Lucas, em sua sanha infinita de tentar melhorar os filmes da saga,  tivesse eliminado todas as cenas com o infame Jar Jar Binks, sumido com os midichorians e corrigido digitalmente a atuação de Jake Lloyd como Anakin Skywalker. Infelizmente, isso não aconteceu.

Visto hoje, 13 anos depois de seus lançamento original, fica claro que George Lucas, como diretor, roteirista e produtor e deus, cometeu erros crassos na concepção do filme. Embora em sua essência o Episódio I seja uma versão modernizada do Episódio IV (jovem que vive num planeta distante ajuda mestre Jedi a salvar a princesa e, após uma empolgante batalha espacial, destrói os inimigos e traz a paz de volta à galáxia – ou algo assim), falta a ele a leveza e a simplicidade que fizeram do filme de 1977 um clássico instantâneo.

Determinado a tornar as situações sempre mais complexas do que mereceriam, Lucas abre o filme com uma incompreensível trama que envolve um bloqueio das rotas comerciais ao planeta Naboo imposto pela gananciosa Federação Comercial. Qual a importância disso para a história? Não interessa. O que importa é que temos dois cavaleiros Jedi que, na tentativa de salvar a rainha Amidala (Natalie Portman), acabam caindo em um planeta inóspito onde encontram o jovem Anakin Skywalker, que como todos sabem, virá a se tornar o temido Darth Vader. Mesmo o suposto segredo da identidade de Darth Sidious é um detalhe muito mal resolvido, assim como a inserção dos midichlorians, que transformam a Força, basicamente, em uma bactéria. Ou um vírus. Tanto faz.

Anakin é vivido pelo garoto Jake Lloyd, que interpreta como se estivesse em um filme de Chris Columbus, soltando Iipis e Uups a cada cinco minutos. Fica difícil saber se o garoto foi realmente a pior escolha possível do casting de milhares que Lucas testou ou se ele é apenas mal dirigido. Minha aposta é na segunda opção, pois até o sempre competente Ewan Mcgregor tem uma atuação constrangedora, piorada pelos constantes erros de continuidade que fazem seu cabelo passar do castanho espetado para o ruivo encaracolado sem a menor discrição. Por outro lado, temos Pernilla August e Liam Neeson atuando como se estivessem em um drama intimista, o que cria uma estranha sensação de desconforto quanto temos todos juntos à mesma mesa, sensação essa piorada pela presença sempre irritante de Jar Jar Binks, a pior criação de Lucas desde os Ewoks.

Imaginando que seria um alívio cômico adorado por milhares (os mesmos milhares que amam os Ewoks), George Lucas deu ao infame personagem um tempo gigantesco em cena, dedicando minutos e mais minutos a um ser que fala de forma perigosamente estereotipada, desastrado no pior sentido da palavra e que age como se fosse um personagem da série do Pernalonga. Liam Neeson deve até hoje chorar de vergonha pela cena em que segura a língua de Jar Jar durante um jantar. Para piorar a situação, todo o cuidado e a dedicação a Jar Jar foi colocado de lado na hora de desenvolver o vilão Darth Maul, a quem Lucas foi incapaz de dar mais de três frases em todo o filme, criando um antagonista visualmente impressionante, mas com menos personalidade que os robôs que fazem ‘oh-oh’ o tempo todo.

E embora o roteiro insista em criar situações apenas como desculpa para cenas de ação (não tinha mesmo outra maneira de Qui-Gon Jinn obter dinheiro para consertar a nave?), Lucas é extremamente bem-sucedido na criação de universos e personagens fantasiosos. Merecem destaque a cidade submersa dos Gungan, o palácio de Naboo e, claro, o fantástico planeta Cosruscant, que é, na verdade, um única e imensa cidade. O design das criaturas também é um achado, em especial o comerciante Watoo e a nova versão digital de Yoda (na primeira versão do filme, Yoda era um marionete pior do que a versão de 1982). Da mesma forma, as cenas de ação são dirigidas com extrema competência – sendo o destaque mais óbvio a emocionante corrida de pods no planeta Tatooine. O mesmo pode ser dito da montagem de Paul Martin Smith, que coordena de maneira eficienteo clímax do filme, com quatro sequencias de ação simultâneas e interdependentes.

O mais fraco da nova trilogia, A Ameaça Fantasma se sustenta principalmente por trazer de volta, ao grande público, elementos e personagens que fazem parte da mitologia da série, como os cavaleiros Jedi, o venerável mestre Yoda, os robôs C3-PO e R2-D2, o planeta Tatooine, as lutas de sabre de luz e a trilha de John Williams, entre outros. Fica claro que a substituição – e isso não é conversa de purista – de um desenvolvimento adequado de personagens pelo máximo que a tecnologia digital pode oferecer não compensa.

A conversão para o 3D, anunciada como fenomenal aos quatro ventos, não tem nada de mais. Nem de menos. Se não é um desastre como as distorções vistas em O Rei Leão e em Fúria de Titãs, está longe de merecer um elogio maior. O 3D de A Ameaça Fantasma funciona muito bem em planos fechados e cenas mais estáticas. Nas sequencias de ação, porém, nas quais se esperava um diferencial, nada acontece, nem na corrida de pods, nem nas batalhas espaciais e, pasmem, nem no confronto entre Jedis e Darth Maul. Mais uma prova de que filmes não pensados para o formato acabam sempre no meio termo.

Ter a oportunidade, porém, de (re)ver estes filmes nas telas do cinema é sempre saudável. Minha esperança é que, daqui a quatro anos, quando o Episódio IV retornar às telas, a tecnologia de conversão melhore e tenhamos, finalmente, um bom filme da saga Star Wars visto em um 3D de qualidade. E com Han Solo atirando primeiro. Sempre.

 

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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Comentários
  1. Tony Marinho

    2 / 12 / 2012 2:49

    Esse jornalista so pode ta doente de um olho ou durmiu durante toda a sessão.
    Eu li realmente isso mesmo??

    “A conversão para o 3D, anunciada como fenomenal aos quatro ventos, não tem nada de mais. Nem de menos. Se não é um desastre como as distorções vistas em O Rei Leão e em Fúria de Titãs, está longe de merecer um elogio maior. O 3D de A Ameaça Fantasma funciona muito bem em planos fechados e cenas mais estáticas. Nas sequencias de ação, porém, nas quais se esperava um diferencial, nada acontece, nem na corrida de pods, nem nas batalhas espaciais e, pasmem, nem no confronto entre Jedis e Darth Maul. ”

    Esse 3D, foi, de longe, um dos melhores filmes 3D ja feitos desde avatar, se não… o melhor filme 3D desde até então.

    “nada acontece, nem na corrida de pods,”

    So pode ter durmido mesmo, a profundidade dada aos pods, os detalhes dos objetos (botoes), os cenarios são coisas de outro mundo, nunca vistas antes.
    eu confesso que fiquei muito impressionado com o trabalho feito neste filme. Foi realmente de fato, bastante inovador.
    O trabalho feito neste filme é impressionante e notavel quadro a quadro do começo ao fim do filme.
    A proposta do filme é dar ao espectador uma experiencia unica e diferente de qualquer filme 3d falso. 3d falso é esses filmezinhos recentes que força jogando objetos em cena contra vcs e olha que eu tou falando de filmes feitos com cameras 3d.
    A profundidade do episodio 1 é bastante natural e real, como se vc tivesse ali mesmo, dentro do filme, dentro das naves, é fantastico.
    A dica que eu digo ao critico é ir assistir novamente o filme e observar melhor, pois pelo que vc escreveu deu a entender que vc assistiu a versao normal em 2d porque esta que está no cinema meu amigo é totalmente diferente.

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    • 2 / 12 / 2012 12:35

      Obrigado pelas observações. Você acabou de confirmar o que eu disse. “… a profundidade dada aos pods, os detalhes dos objetos (botoes), os cenarios são coisas de outro mundo, nunca vistas antes”. O 3D funciona sim, em plano fechados e estáticos, ou seja, cenários, detalhes, cabines, cockpits (é, sim, possível perceber a distância entre Anakin e as turbinas dos pods, é muito legal ver Darh Maul surgindo ‘atrás’ da porta que se abre no hangar), mas quando a ação passa para cenas mais rápidas e planos abertos (leia-se, várias naves ou várias pessoas ao mesmo tempo) ele é comum. E quando eu digo que ‘nada acontece’ é apenas que é rasteiro. O de Avatar funciona muito bem. Até o de Os Três Mosqueteiros funciona bem. O de Megamente é maravilhoso.O de Star Wars é fraco. E, acredite,nenhum 3D convertido (ainda) é melhor do que um 3d original.

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  2. Zebra Zumbi

    2 / 19 / 2012 10:45

    Fiquei muito decepcionado com o 3D. Ontem eu assisti a dois filmes 3D: A Invenção de Hugo Cabret e Star Wars. Talvez por isso eu tenha sido um dos únicos a notar Star Wars praticamente não estava em 3D. No filme Hugo, todas as cenas tinham uma longa profundidade (coisa de dezenas de metros), fazendo com que eu pudesse focar em qualquer ponto que eu quisesse. Já no Star Wars, a profundidade estava em CENTÍMETROS. e NÃO, eu não estou exagerando!!!! tinham cenas onde era simplismente impossível mudar o ponto de foco!!!!! Agora, não só no filme Hugo como em todos os outros 3D que eu ando vendo nos cinemas, todas as cenas dão para mudar o ponto de foco tranquilamente, sem problemas. Para mim isso foi apenas mais uma prova de que essa coisa de transformar 2D em 3 D é papo furado…

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    • 2 / 19 / 2012 12:37

      Vi Hugo ontem também. Qualquer pessoa que venha argumentar que o 3D de Star Wars é bom não tem noção do que seja isso. O 3D de Hugo é simplesmente fenomenal. E o filme é excelente também! 3D convertido nunca será tão bom quanto 3D original.

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  3. Alana

    2 / 21 / 2012 16:48

    Acebei de assistir ao filme e tenho que discordar das criticas feitas acima.
    Jake Lloy, Ewan Mcgregor e Liam Neeson foram, a meu ver, muito bem dirigidos.
    Quanto ao Jar Jar é um personagem perfeito para quebrar a monotonia que algumas pessoas possam vir a sentir.
    Notar pequenas mudanças no cabelo de McGregor, Ah por favor, me poupe!!!
    Enfim, a meu ver, Star Wars é uma super produção fantástica!!!

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    • 2 / 21 / 2012 18:33

      Sim, Jar Jar era um personagem tão bom que Lucas simplesmente sumiu com ele nos outros dois filmes.
      E para quebrar a monotonia não precisa de um personagem, basta montar melhor o filme. E o cabelo ruivo do McGregor não dá pra perdoar!!
      Adoro Star Wars, mas o Episódio I é uma bomba.

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  4. 3 / 6 / 2012 18:41

    Concordo em gênero, número e grau com o Márcio Santos. Quem achou bom o 3D do filme não tem noção… Parabéns ao Márcio, um dos melhores críticos disponíveis na net, porque escreve com conhecimento de causa, mas sem pedantismo (tão comum em certos críticos) e de modo atraente, agradável e com emoção. Linguagem de jornalista, feito para o públici em geral e não apenas para grupos esotéricos de cinéfilos.

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    • 3 / 6 / 2012 19:08

      Obrigado novamente, mestre. Uso aquilo que vc me ensinou uma vez: o bom texto é aquele que pode ser entendido e compreendido por qualquer um, e não apenas pelo especialista. Abraços!

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