Crítica | A Invenção de Hugo Cabret

Martin Scorsese é com certeza o mais cinéfilo dos cineastas americanos. Seu amor pelo cinema e por sua história só é comparável com o seu excepcional talento como contador de histórias. Em A Invenção de Hugo Cabret, Scorsese une estas duas características em uma obra que, ao mesmo tempo em que difere totalmente de qualquer projeto anterior do cineasta, se coloca imediatamente como uma belíssima representação de todo o trabalho de uma vida em prol da preservação não apenas da memória, mas, principalmente, da magia do cinema.

Baseado no livro de Brian Selznick (que, numa daquelas coincidências que só o cinema pode promover, é parente do todo-poderoso produtor David O. Selznick, de …E o Vento Levou), A Invenção de Hugo Cabret conta a história do jovem órfão (Asa Buttefield), que, após a morte do pai, vive enfurnado nas entranhas de uma estação de trem em Paris, onde cuida da manutenção de todos os relógios. Obcecado em reconstruir um autômato deixado por seu pai, Hugo realiza pequenos furtos de peças mecânicas que possam ajudá-lo nessa tarefa, ao mesmo tempo em que tenta sempre escapar do implacável Inspetor da Estação, sempre na caça a pequenos meliantes. Ao ter seu bloco de anotações recolhido por um velho senhor, dono de uma loja de brinquedos (Ben Kingsley), Hugo passa a trabalhar para este homem, com o objetivo de reaver seu caderno, fundamental para o conserto do autômato. Eventualmente, com a ajuda da jovem Isabelle (Chloe Moretz), neta do velho senhor, ele descobrirá que este homem é ninguém menos que George Méliès, pioneiro cineasta do início do século e um dos primeiros homens a perceber as possibilidades narrativas do cinema.

Estabelecendo o tom mágico e lúdico do filme desde os primeiros minutos – com um fundamental plano-sequencia que ilustra a dinâmica da estação de trem, seus curiosos habitantes e os espaços internos entre os quais Hugo se movimenta – Scorsese é preciso como um relógio em definir que seu filme, mais do que uma declaração de amor ao cinema, trata especificamente da ação inexorável do tempo e a maneira como lidamos com isso.

Não por acaso os personagens do filme vivem com os olhos no passado, tentando entender o que os levou àquele momento em que vivem e buscando, de um modo ou de outro, uma forma de escapar daquele universo finito que os prende: Hugo, buscando na reconstrução do autômato um reencontro com o pai; Isabelle cuja energia e espírito aventureiro não cabem em sua pacata vidinha ao lado dos avós; Papa George, um homem inteligente e machucado por sua história, mas que jamais esquece a importância da magia em sua vida; e mesmo o Inspetor da Estação, vítima de um ferimento de guerra – do qual é lembrado constantemente – e incapaz de demonstrar seus sentimentos sem parecer minimamente artificial. Todos, essencialmente, clamando por um espaço maior para brilhar. E qual o melhor lugar para brilhar que não uma tela de cinema?

E é assim que Hugo vê o mundo. As inúmeras referências ao cinema não acontecem apenas quando o filme resolve focar na trajetória de George Méliès, mas estão presentes desde a maneira como Hugo enxerga os curiosos habitantes da estação de trem (na qual podemos reconhecer ícones como Salvador Dalí e Django Reinhardt), passando pelo  funcionamento das engrenagens dos relógios, que lembram os mecanismos de um projetor até o movimento das folhas do bloco de anotações de Hugo, que reproduzem os princípios da animação no cinema. Mesmo o autômato, que, com seu rosto impessoal, somente se manifesta por meio de ilustrações, o faz desenhando uma cena-chave do filme Viagem à Lua. Com um detalhe, ele funciona somente após receber uma chave em formato de coração. A metáfora aqui é clara: somente ao abrir seu coração, você estará apto a encontrar a luz. Não por acaso, esta ideia da chave para o coração está presente também no painel que fica acima do estande da florista, representada por Emily Mortimer, cortejada pelo Inspetor da Estação.

Tecnicamente, o filme é primoroso. O design de produção de Dante Ferreti – altamente premiável – consegue estabelecer a estação de trem como um local rico em texturas, desde seu interior – valorizado enormemente pela excelente fotografia em 3D de Robert Richardson – até seus cafés, suas lojas e suas salas, sempre transbordando vida e movimento. Por outro lado, a opção por não utilizar cenários realistas para representar a cidade de Paris – deliciosamente replicada em CGI – reforça positivamente o caráter fantasioso da obra. A montagem de Telma Schoonmaker, a eterna parceira de Scorsese, notabiliza-se por deliciosas fusões, como a primeira cena do filme, em que as ruas de Paris mesclam-se com os mecanismos dos relógios e o simples, mas emocionante, corte de um Méliès velho e cansado para um Méliès jovem e criativo. A música de Howard Shore também surpreende pelo tom leve e emocional, bem diferente do trabalho usual do compositor.

Se, em sua primeira hora, Hugo é uma competente trama infanto-juvenil sobre um jovem órfão, é a partir do momento que coloca George Méliès sob os holofotes que Scorsese revela a grandiosidade de sua obra. Fascinado pelo cinematógrafo dos irmãos Lumiére – que não viam outra função em sua invenção além do registro da realidade – Méliès constrói sua própria câmera para produzir seus filmes. Calcados na mais delirante fantasia, os filmes de Méliès eram maravilhosamente ingênuos, com atores lutando contra dragões de papelão ou enfrentando homens fantasiados de esqueleto (e é fascinante perceber como o cineasta, por sua conta, criava a noção de profundidade em seus filmes). Não por acaso, ao encontrar um jovem em seu estúdio, Méliès lhe diz “Você já quis saber de onde seus sonhos vêm? É aqui que eles são feitos”. Mais do que uma homenagem a este pioneiro, Scorsese reverencia o homem que entendeu, desde cedo, que o cinema deveria transportar as pessoas para outra realidade – e, neste ponto, a antológica cena do foguete do olho da Lua ganha uma dimensão ainda mais profunda.

Fica claro, porém, que toda esta grandiosidade está presente em Hugo muito mais por conta da experiência e da genialidade de Scorsese do que pelo roteiro de John Logan, que se estende por conta de cenas descartáveis (como o interminável flerte entre o casal interpretado Richard Griffiths e Frances de la Tour), alívios cômicos que não funcionam (as constantes perseguições do Inspetor) e por uma obviedade dramática que é explicada pelo fato de filme ser – supostamente – uma produção para jovens. Só isso justifica o fato de que, a todo momentos, alguém está verbalizando seus sentimentos ou explicando suas ações, sem deixar espaço para que o espectador possa tirar suas conclusões.

Mesmo as cenas de sonhos de Hugo, uma com um trem descarrilando e outra em que se imagina como um autômato, acabam soando demasiadamente óbvias e sem encaixe no conjunto da obra. Não há como negar, ainda, que a partir de determinado momento, o filme poderia muito bem passar a se chamar A Invenção de George Méliès, já que o jovem protagonista Hugo é literalmente colocado de lado sem pudores pelo roteiro de Logan. Por outro lado, o bem montado arco da história do autômato e de seu propósito – que cedeu peças para a construção da primeira câmera de Méliès e termina como responsável por seu reconhecimento, ainda que tardio – é de uma esperteza admirável.

Organizando uma verdadeira aula da história do cinema – além dos filmes de Méliès, temos imagens e cenas de personagens fundamentais, como Chaplin, Buster Keaton, Louise Brooks, Tom Mix e de filmes como IntolerânciaO Homem-Mosca (Harold Lloyd em sua clássica cena do relógio), A GeneralO Grande Roubo do Trem, entre outros – Scorsese realiza uma obra emocionante, que seduz por seu aspecto técnico e narrativo, mas que conquista mesmo por conseguir traduzir, de forma inigualável, o que o público sentia ao ver os filmes de Méliès: era pura fantasia, mas era impossível não se entregar de corpo e alma a essa experiência.

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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