Crítica | Jogos Vorazes
A nova saga cinematográfica baseada em uma série de livros de sucesso – assim como Harry Potter, Senhor dos Anéis e, vá lá, Crepúsculo – chega às telas com a peculiar obrigação de atender a expectativa gerada por seus fãs. E embora não seja uma obra isenta de problemas, Jogos Vorazes cumpre com honras sua missão: além de ser um filme empolgante com uma protagonista irresistível, ainda se dá ao luxo de discutir temas polêmicos poucas vezes vistos em produções direcionadas ao público juvenil. Ponto para o diretor Gary Ross que, vindo dos dramas A Vida em Preto e Branco (1998) e Seabiscuit – Alma de Herói (2003), revela-se um artesão de mão cheia ao criar um universo alternativo verossímil e aflitivo.
Parte do sucesso do filme deve-se também ao material original escrito por Suzanne Collins – que também colabora no roteiro. Partindo de uma premissa já utilizada em filmes como Rollerball (1975), O Sobrevivente (1987) e, principalmente, Batalha Real (2000), Jogos Vorazes se passa em um futuro pós-apocaliptíco no qual a América do Norte, agora chamada de Panen, é dividida em doze distritos dominados pela onipotente Capital.
A fim de manter os distritos sob controle e evitar possíveis levantes – ou algo parecido, o que nunca fica muito claro – , a Capital promove a competição que dá nome ao filme, uma disputa de vida ou morte com apenas um sobrevivente. É nesta realidade que encontramos a jovem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, de X-Men: Primeira Classe e Inverno da Alma), que se oferece como tributo aos jogos no lugar de sua irmã menor, Primrose, que é sorteada no evento anual que define quem serão os dois indicados, um garoto e uma garota, por cada distrito. Junto com o jovem Peeta Mellark (Josh Hutchenson, de Ponte para Therabítia e Zathura), Katniss é levada para a gigantesca Capital, onde irá treinar suas aptidões e conhecer seus antagonistas.
O roteiro coescrito pelo diretor Ross é eficiente em apresentar Katniss como uma sobrevivente nata – hábil em usar o arco e flecha para caçar e garantir o sustento de sua família – e uma pessoa abnegada e altruísta o suficiente para não se importar em arriscar sua vida em uma competição suicida, tudo para garantir a sobrevivência de sua irmã.
Retratando o Distrito 12 como um local miserável e decadente, fica clara a proposta do diretor em associar o estado totalitário de Panem com o regime nazista, em especial nas cenas em que mostra os jovens preparando-se para a colheita (o momento da escolha dos tributos), reunidos numa espécie de campo de concentração, trajando vestes uniformemente humildes e como olhar melancólico de quem sabe que, no fundo, está ali para que se defina quem irá morrer em nome do governo.
Isso contrasta de forma notável com o visual dos habitantes da Capital: vestidos como se estivessem em um constante baile de máscaras, exibem-se com roupas coloridas, perucas, make-up exagerado e gestos grandiloquentes – um bando de alienados refinados -, revelando sua personalidade por meio de sua carcaça externa, como os vestidos e a maquiagem infantil de Effie Trinket (Elizabeth Banks) e a barbicha satânica de Seneca Crane (Wes Bentley). Neste ponto, é revelador o fato de que o Presidente Snow – interpretado pelo veterano Donald Sutherland – seja o único que age e se veste como alguém consciente da realidade em que vive.
Mantendo um ritmo adequado desde o início do filme, Ross não se preocupa em apressar o desenvolvimento da trama. Assim, temos o filme equilibrando adequadamente o período de treinamento de Katniss – no qual vemos os competidores profissionais de outros distritos e o início de parcerias que irão perdurar durante os combates – com o período efetivo da competição, que ocupa toda a segunda metade do filme. É neste momento que Jogos Vorazes revela seu principal trunfo: embora Jennifer Lawrence esteja impecável no período pré-jogo (é delicioso vê-la chamar a atenção de seus avaliadores utilizando para isso uma flecha, um porco e uma maçã), é durante a disputa que a jovem atriz definitivamente se posiciona como uma grande estrela: com um olhar sempre decidido e obstinado, sua Katniss é uma pessoa de rígidos preceitos morais que – com uma bela ajuda do roteiro – mata somente em legítima defesa e é incapaz de trair seus companheiros ou aqueles que pedem sua ajuda, como a pequena Rue (Amandla Stenberg), responsável por uma das cenas mais tocantes do longa.
Mesmo com a habilidade de Ross em evitar as armadilhas de tentar explicar demais a trama (erro que o recente John Carter não conseguiu evitar), o filme, ainda assim, falha em alguns aspectos, com personagens que desaparecem de uma hora para outra (como os de Elizabeth Banks e Lenny Kravitz), intervenções desnecessárias dos comentaristas interpretados por Stanley Tucci e Toby Jones (que entregam detalhes da trama) e algumas soluções tiradas do fundo da manga, como o competidor do Distrito 11 que salva Katniss, personagem este que nunca havia dado as caras no filme até aquele momento.
Da mesma forma, a suposta ameaça que a atuação corajosa e obstinada de Katniss (representada por um gesto que deve virar febre entre os jovens) pode representar ao sistema totalitário em vigor soa rasa, limitando-se a um incidente de pouco mais de 30 segundos que não apresenta maiores consequências. Também não convence o romance com o jovem Peeta – mesmo que saibamos se tratar, de início, de uma estratégia de jogo –, muito mais pela inexpressividade de Hutchenson do que por qualquer outro motivo.
Estabelecendo a arena como um local que os organizadores podem modificar em tempo real (com intervenções que variam desde colocar fogo em toda uma floresta até a inserção de seres geneticamente alterados), o filme flerta com a noção de que esta possa ser uma espécie de ambiente de realidade virtual (algo como a sala de treinamento dos X-Men), mas não vai mais longe nesta ideia, o que deixa uma certa frustração no ar. As lutas travadas na arena são retratadas de forma violenta, mas de forma muito mais sugerida do que graficamente explícita. Mesmo assim, a montagem especifica destes confrontos é realizada de forma tão abrupta e com tantos cortes, que ficam praticamente impossível de serem acompanhados pelo espectador.
Por outro lado, os efeitos especiais de qualidade duvidosa ficam em cena pelo tempo suficiente para não incomodar, especialmente nas cenas que mostram a Capital, uma estrutura genérica igual a varias vistas no cinema – e na televisão – nos últimos anos. O filme conta ainda com a participação sempre bem-vinda de Woody Harrelson – cujo personagem, um veteranos dos jogos, consegue transitar com coerência entre o mentor que já viu muitos de seus treinandos serem mandados para a morte e o conhecedor das engrenagens dos jogos, que sabe como conseguir um patrocínio quando necessário ou negociar uma saída viável para a jovem Katniss e seu amigo.
E se a impressão final causada pelo filme seja a de que Katniss aparentemente se rendeu ao sistema contra o qual tanto lutou, fica uma questão também para o espectador. Temos aqui um filme tecnicamente brilhante, uma protagonista carismática e uma história de superação levada ao limite. Ainda assim, é curioso que o novo fenômeno cinematográfico seja uma história na qual adolescentes devam se matar para o bel prazer de uma plateia desumana e degenerada – um reality show sádico e bizarro. Mais atual, impossível.
Hunger Games
EUA , 2012
Ação – 142 minutos
Direção: Gary Ross
Roteiro: Billy Ray, Gary Ross, Suzanne Collins
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Stanley Tucci, Wes Bentley, Woody Harrelson, Toby Jones, Elizabeth Banks, Donald Sutherland, Lenny Kravitz
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4 / 1 / 2012 23:25
Pelo trailer não achei grande coisa, mas os comentários tem sido positivos, parece ser um bom entretenimento. Depois de sagas como Senhor dos Anéis e Harry Potter parece que uma substituta foi encontrada…
4 / 2 / 2012 10:25
Na verdade não chega tão perto de nenhum destes dois, mas é um entretenimento competente, muito melhor que uma série como Crepúsculo, por exemplo.
10 / 20 / 2012 2:30
Li muitos textos iguais a respeito do filme e quando digo iguais , quero dizer idênticos. A maioria se dizendo critico, tome tento ! Procure ler mais antes de publicar um texto.. Não há critica no seu texto, não há uma referência confiável ou interessante… Assista os filmes que citou no texto, busque referências e pare de dar dar ctrl c ctrl v em tudo. A internet está deixando as pessoas burra e preguiçosa !
10 / 20 / 2012 21:56
Concordo plenamente com você. Considerando seus argumentos, estes sim sem a menor referência, a Internet não só está deixando como têm muitas pessoas burra (sic) e preguiçosa (sic), que sequer conseguem trabalhar com o plural das palavras, mas adoram levantar polêmicas inútil (ops).