Crítica | O Artista

Muito mais do que uma homenagem ao cinema e à sua história, O Artista é uma emocionante lembrança de que, para se contar uma boa história, não é preciso uma parafernália eletrônica, astros milionários, telas gigantescas e óculos para vermos em três dimensões. Que fique claro, não se trata de purismo nostálgico ou saudades de um tempo em que sequer vivemos.  Mas o que o Artista nos mostra é que é possível almejar a grandiosidade contando apenas com um bom roteiro, uma boa direção, bons atores e uma equipe profissional fazendo o que ama. Com uma receita destas, se pode dispensar até as cores em um filme. Até o som, se for o caso.

O Artista é um filme mudo, em preto e branco, com algumas poucas legendas entre suas cenas e com o formato de tela 4:3, aquele formato comum de filmes das primeiras décadas do século XX. E é um filme maravilhoso. Ao contrário do que se imagina, O Artista emana um frescor, uma alegria e uma jovialidade tão palpáveis que é impossível não se apaixonar pela história e por seus personagens. O filme se inspira diretamente em clássicos como Cantando na Chuva (1952), de Stanley Donen/Gene Kelly e Nasce uma Estrela (1937), de William Wellman. Do primeiro, o diretor e roteirista Michel Hazanavicius pegou o período de transição do cinema mudo para o cinema falado e suas consequencias para os atores que não se adaptaram ao processo. Do segundo, a história da jovem promissora que se transforma em estrela enquanto seu amado segue em direção ao fracasso. Mesmo com referências tão claras, o filme consegue alçar-se acima do simples tributo e, por conta de um roteiro extremamente conciso, estabelecer-se como uma obra original e de identidade própria.

Tudo começa em 1927, quando estreia o mais novo filme do astro do cinema mudo George Valentin (Jean Dujardin), fazendo o mesmo tipo do galã Douglas Fairbanks. Exuberante, vaidoso, orgulhoso e egocêntrico (mas ainda assim, adorável) Valentin tem um encontro inesperado, na porta do cinema, com uma fã, a aspirante a atriz Peppy Miller (Berenice Bejo, também esposa do diretor e esbanjando charme e beleza), momento este registrado por todos os fotógrafos. Dias depois, ao iniciar a gravação de um novo filme, qual não é a surpresa de Valentin ao descobrir que essa jovem irá fazer uma ponta. Mesmo contra a vontade do poderoso produtor Al Zimmer (John Goodman, sempre soberbo), que a acusa de ter tirado todas as atenções da estreia, Valentin insiste na presença da jovem. A atração entre eles é imediata. Apesar disso, os dois acabam se afastando. Ao longo da história, enquanto Peppy galga os degraus do sucesso, filme a filme, Valentin começa a sentir o gosto do fracasso, em especial por não se ajustar às novas orientações do estúdio, que pretende lançar apenas filmes falados.

Trata-se de um filme sobre transições. A transição do cinema mudo para o falado. Do sucesso para o fracasso. Da esperança para a realização. De um tempo de economia em naufrágio para um tempo de recuperação. De um modo simples de se fazer cinema para um modo mais complexo. Da comédia para o drama. O diretor Michel Hazanavicious trata destas questões por meio de soluções visuais e cenográficas não menos que geniais, como a sequencia em que vemos a ascensão de Peppy em Hollywood: ao mesmo tempo em que seu nome vai subindo de posição nos créditos do filmes em que participa, seu público vai aumentando de forma exponencial – primeiro, somente os amigos mais chegados, até chegar em todo o público de uma sala de cinema, representando o sucesso popular absoluto. Na mesma toada, temos a cena final do filme mudo dirigido por Dujardin, na qual ele morre na areia movediça. Nem é preciso explicar.

Jean Dujardin transforma seu George Valentin em um homem charmoso e com uma boa conversa. Por conta disso, é revelador saber que sua relação com sua esposa é problemática. Sem capacidade – ou vontade mesmo – de separar o astro do homem comum (não por acaso seu cachorrinho e parceiro de tela Huggie está sempre o acompanhando), Valentin sequer consegue conversar com ela. E quando sua esposa o questiona por que ele não fala, o que temos é também um reflexo de sua atitude frente às mudanças propostas pelo estúdio. Penelope Ann Miller, infelizmente, tem uma participação relativamente ingrata no filme, quase superficial. Ainda assim, não há como não adorar os momentos em que ela, de raiva, rabisca as fotos de Valentin e a deliciosa referência à clássica sequencia do café da manhã de Cidadão Kane.

Os encontros entre Valentin e Peppy Miller – e são vários –  ao longo do filme são tratados de forma tão inteligente, tão cuidadosa e com tantos detalhes pelo diretor Hazanavicius que não há como simplesmente não se deliciar com estes momentos. Como não amar o fato de que o pôster do filme pregado na parede de Valentin, quando este conversa com Peppy, seja justamente The Thief of Her Heart (O Ladrão de Seu Coração) e que, na hora em que vai embora, Peppy seja enquadrada justamente entre o retrato do cãozinho Huggie (a carreira) e a foto do casamento (a família)?

Vale destacar ainda o ótimo momento em que Valentin repete uma tomada diversas vezes apenas porque percebe que irá se encontrar com Peppy durante uma breve dança. Temos também a brilhante sequencia em que Valentin e Peppy se encontram nas escadas do estúdio, que revela muito sobre o momento de cada um: ela está subindo, ele está em sentido contrário, com todas as pessoas – e o mundo – movendo-se sem se importar com ele, e sendo olhado com curiosidade pelos jovens e novos contratados. Não há como negar que o filme é todo de Jean Dujardin. Capaz de transmutar-se do ator radiante e orgulhoso para um homem amargurado e infeliz como se estivesse brincando, é notável a maneira como ele incorpora os maneirismos e gestuais dos astros do período. Vale lembrar ainda de James Cromwell, uma presença sempre marcante como o fiel chofer e escudeiro de Valentin.

Trabalhando em boa parte do filme somente com a música de Ludovic Bource (há alguns momentos com diálogos e sons ambientes), que transita com competência entre os momentos alegres e leves do começo e a trilha mais pesada e dramática da segunda metade, o diretor Hazanavicius surpreende por utilizar, nos últimos 15 minutos do filme, a música composta pelo maestro Bernard Herrman para o clássico Um Corpo que Cai. Esta opção, de certo modo, amplifica o alcance dramático do momento retratado no filme (afinal, trata-se uma música sobre um homem que perde tudo o que ama na vida e que busca a redenção por meio da manutenção do passado). Por outro lado, não há como negar que soa involuntariamente como uma escolha com o objetivo único de agradar os cinéfilos (e votantes) de plantão.

Encerrando o filme com uma sequencia que fecha de maneira genial o arco estabelecido nos primeiros minutos – e que talvez esclareça o motivo de toda a resistência de Valentin -,  O Artista é um filme que pode até parecer destinado a um público mais refinado, conhecedor da história do cinema e seus gêneros. Ledo engano. Com sua simplicidade e genialidade gritantes, o filme é um deleite para os olhos, para a mente e, por que não, para o coração do espectador. Não é, de maneira alguma, uma volta ao passado, um revival dos filmes preto e branco e mudos. É apenas uma maneira de dizer, sim, que sempre é possível cantar e dançar e sorrir. Mesmo que você não ouça a música.

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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