Revendo a Saga Crepúsculo

Em homenagem ao lançamento do quarto filme da chamada Saga Crepúsculo nas locadoras, o blog A Mosca da Cabeça Branca apresenta agora um pequeno resumo dos filmes anteriores.

Produção de valores modestos, o primeiro filme  custou pouco mais de U$ 37 milhões, tendo faturado ao redor do mundo algo próximo dos U$ 400 milhões. Todo este lucro, porém, não incentivou os produtores a investirem em um roteiro que desviasse do lugar-comum ou efeitos de melhor qualidade. Assim, o que se vê ao longo dos três primeiros filmes são tramas constrangedoramente ruins e repetitivas e com efeitos especiais dignos de documentários de televisão por assinatura.

Isso não impediu, porém, que os filmes faturassem até hoje um valor superior a U$ 1.8 bilhão em arrecadação mundial. Muito disse se deve ao exército de fãs incondicionais da história bolada por Stephanie Meyer, que mistura um romantismo ultrapassado a um conservadorismo arcaico pontuado por visões maniqueístas e, muitas vezes, preconceituosas de certos elementos na trama. Confira, então, o resumo da ópera.

CREPÚSCULO (2008)

Dirigido por Catherine Hardwick, Crepúsculo conta a história da adolescente Isabella Swann (Kristen Stewart, aparentando uma eterna dor de barriga) que se muda para a pequena,  bucólica  e nublada cidade de Forks para morar com seu pai. Em seu primeiro dia na escola, Bella sente-se estranhamente atraída por um rapaz de tez esbranquiçada que, aparentemente, está fazendo o 3º ano pela décima vez. Não demora muito para que ela descubra que Edward Cullen (Robert Pattinson, atuando como se estivesse num eterno comercial de perfume) é, na verdade, um vampiro.

Aqui, entretanto, cabe um parênteses enorme.

As criaturas mostradas na obra original de Stephenie Meyer, embora chamadas de vampiros, pouco lembram a maligna criatura das trevas já vista dezenas de vezes no cinema e na literatura. Os vampiros da saga Crepúsculo andam normalmente durante o dia, não tem medo de cruzes ou alhos ou afins, dormem em confortáveis mansões quase vitorianas e – heresia suprema – não derretem ou explodem sob os raios do sol, mas brilham como se fossem diamantes. Ou purpurina. Dá no mesmo.

Dito isso, vamos continuar com a história.

Edward e Bella, eventualmente, apaixonam-se e passam a viver um romance açucarado e entediante ao extremo. Em determinado momento da trama, Edward chega perto de Bella para dizer que eles não podem ficar juntos e que ele deve se afastar porque ele é um vampiro e irá lhe ferir. Ela o escuta, faz aquela cara de quem está com azia e ele vai embora. Dez minutos depois, Edward chega perto de Bella para dizer que eles não podem ficar juntos e que ele deve se afastar porque ele é um vampiro e irá lhe ferir. Ela o escuta, faz aquela cara de quem está com azia e ele vai embora. E basicamente é esta a história.

O roteiro de Melissa Rosenberg (que, quando está inspirada, escreve Dexter), ao invés de tentar burlar a mediocridade original de Meyer, faz questão de ressaltá-la. Some-se a isso a direção canhestra de Hardwick (que depois viria a cometer aquela bobagem chamada A Menina do Capuz Vermelho) alguns efeitos especiais de quinta categoria e o que temos é um love story que não empolga com duas ou três cenas de ação que envolvem alguns vampiros do mal (sim, porque, além de tudo, Cullen e seus amigos vampiros do bem são vegetarianos, que não sugam sangue humano) que, por alguma razão não explicada, resolvem perseguir a amada de Edward.

Nesta primeira parte, há ainda a participação de Taylor Lautner pré-anabolizante e com cabelos compridos como o jovem índio Jacob que, obviamente, também está apaixonado por Bella. Jacob, embora ainda não se saiba neste capítulo, irá crescer e virar um lobinho nos próximos episódios. E irá disputar, de lobisomem para vampiro, o amor da indecisa Bella Swan. Neste primeiro momento, sua função é basicamente ser o contraponto moreno do quase albino Edward.

Escritora sem a menor sutileza, Stephenie Meyer não faz questão de disfarçar que todo o imbróglio entre Bella e Edward tem um claro fundo sexual. E o desejo de Bella em ser mordida por seu amado não precisa de esclarecimentos para o público mais ou menos inteligente. Percebe-se, porém, um conservadorismo extremo delineado na história. Ao colocar o belo, e aristocrático Edward como o bastião do pescoço (leia-se virgindade) de Bella, Meyer demonstra que, em seu ponto de vista, as mulheres ainda devem curvar-se a seu príncipe encantado (venha ele em que formato vier) e esperar pelo momento certo para se entregar. Qualquer ato fora desse padrão pode lhe custar a alma (leia-se a honra).

Uma mensagem claramente machista e arcaica, mas que encontrou respaldo nas milhares de jovens e adolescentes que saudaram esta obra como uma das mais belas histórias de amor já realizadas. O que diz muito sobre a juventude de hoje em dia.

Cada geração tem …E o Vento Levou que merece.

1/5

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LUA NOVA (2009)

Lua Nova, a continuação do inesperado sucesso Crepúsculo, chegou aos cinemas com um intervalo mínimo entre uma obra e outra. Se isso, por um lado, saciou o desejo das fãs por novas doses de Edward em câmera lenta, por outro lado, resultou em outra obra com um roteiro que segue ao pé da letra a já citada mediocridade original e com uma execução apressada, que sequer se preocupa em tapar os gigantescos buracos da trama. Nesta nova empreitada, Bella e Edward continuam apaixonados, com ela sempre insistindo em ser mordida e ele dizendo que não é bem assim. Após Bella ser atacada por um dos vampiros aristocratas e amigos de Edward, este resolve que, para salvá-la de qualquer perigo – isso, que nem o Homem-Aranha – deve abandoná-la e sair da pequena e nublada cidade de Fork.

Abandonada, Bella descobre que, ao enfrentar situações de perigo, Edward (em formato de holografia) aparece para lhe dar conselhos do tipo “Não suba na moto desse cara estranho” ou “Não ande a mais de 180 km/h de moto na estrada” ou “Não pule neste precipício cheio de pedras no fundo”. Em suma, Edward nada mais é do que o bom senso de qualquer pessoa comum. Ainda interpretando como se estivesse eternamente com dor de barriga, Kristen Stewart sofre com o roteiro risível que a transforma de garota depressiva e deprimente para uma garota suicida apenas deprimente.

A principal novidade na história é a participação mais contante de Taylor Lautner (exageradamente bombado), retornando como o jovem Jacob, que agora resolve partir para a luta e conquistar o coração de Bella. Não que isso seja muito difícil, pois três meses após ser abandonada pelo vampiro em crise, Bella já começa a ver em Jacob alguém para chamar de seu. Tudo daria certo, claro, se ela não descobrisse que Jacob agora virou um lobisomem. E então temos, novamente, toda aquela enrolação que tivemos no episódio anterior. Jacob diz a Bella que eles não podem ficar juntos porque ele é um lobisomem e irá feri-la. E Bella fica triste. E resolve jogar-se do penhasco, mesmo com a holografia de  Edward dizendo que isso é perigoso. O melhor, entretanto, vem depois. Achando que Bella está morta, Edward decide ir para a Itália se matar, e agora é Bella que tem de salvá-lo.

A direção de Chris Weitz, que substitui a péssima Catherine Hardwick, até que tenta disfarçar essas incongruências da trama, mas não há o que fazer quando o material original é de tão baixa qualidade. Em determinado momento da trama, Jacob, defendendo Bella, engalfinha-se com outro lobo de forma violenta. Dez minutos depois, reaparecem abraçados como se nada tivesse acontecido, com o lobisomem algoz falando algo como “desculpa aí, Bella”. Claro, ele só queria matá-la e destroçá-la, mas era sem maldade. E o que dizer da gangue de lobisomens que passa o filme inteiro descamisada e que, mesmo com suas roupas sendo rasgadas a cada transformação, insistem em sair de trás de rochas sempre de calça jeans e rindo como se estivessem num filme de Frank Avalon? E da visão da irmã de Edward que, ao enxergar Bella como vampira no futuro, a vê correndo pelo bosque em câmera lenta com a pele brilhando?

Tentando dar um ar um pouco mais sério à saga, Meyer criou a história dos Volturi, uma espécie de família real dos vampiros, a quem Edward recorre para se matar por conta do suposto suicídio de Bella. Se fossem vampiros normais era só pegar um dia de sol que estava resolvido, mas, fazer o que? De qualquer maneira, os Volturi – inseridos na trama de forma extremamente aleatória – nada mais são do que um flerte superficial com os vampiros criados pela escritora Anne Rice – e a semelhança com o Teatro dos Vampiros visto no filme de Neil Jordan não é mera coincidência. E é triste constatar o desperdício de atores do calibre como Michael Sheen e Dakota Fanning em papéis que nada exige deles.

Neste segundo filme, é fácil perceber que as convenções conservadoras do texto original de Meyer se mantêm e se intensificam. Assim, sem a orientação e o cuidado de Edward, Bella tem atitudes que põem em risco sua própria vida e apresenta-se como potencialmente promíscua, trocando de parceiros sem pensar muito. E, se vale a pena irmos além, Meyer posiciona os aristocráticos e (aparentemente) europeus vampiros como a única escolha correta de Bella, enquanto os índios, representados pelos descamisados de Jacob, são nada mais do que animais selvagens e sem controle com os quais se pode até flertar, mas nada além disso. E, para fechar a questão, Edward, um gentleman, resolve que só irá cravar suas presas em Bella após o casamento.

Aqui ficam também evidentes mais alguns motivos de sucesso da saga. Além do tom romântico antiquado e da mensagem conservadora, fica nítido que, no fundo, todas as adolescentes gostariam de ser Bella e, de alguma maneira, acabam se identificando com ela. E devem pensar: ‘se ela que é chata, vive de mau humor, não dá uma risada, é depressiva, incoerente, insegura e meio burrinha consegue ter dois colírios se matando por ela, por que não eu’?

Já dizia o Kid Abelha, “por que não eu”?

2/5

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ECLIPSE (2010)

Escolher David Slade, o diretor de 30 Dias de Noite para a segunda continuação da saga Crepúsculo pareceu, de início, uma boa pedida por parte dos produtores. Mas os problemas continuam sempre os mesmos. O texto original de Stephenie Meyer é de uma nulidade absurda. Kristen Stewart e Robert Pattinson interpretam de olho no MTV Movie Awards e os efeitos especiais continuam pedestres. Sendo assim, pouco resta ao diretor senão fotografar conversas e mais conversas no meio de um campo de flores ou tentar criar um (fraco) suspense sobre a mais nova ameaça a chegar à pequena e nublada cidade de Fork.

Eclipse começa com Edward e Bella conversando (claro!) sobre o casamento. Mostrando ser incapaz de manter a coerência com sua personagem principal, o roteiro, novamente escrito por Melissa Rosenberg, agora coloca Bella questionando o casamento por achá-lo arcaico e simplesmente convencional. Ou seja, dar o pescoço para um vampiro e passar o resto da existência como morta-viva, pode. Casar de véu e grinalda, porém, é praticamente um insulto. Esta incoerência atinge também o nosso lobisomem Jacob. Se, no episódio anterior, ele dizia que Bella devia se afastar, pois ele iria eventualmente feri-la, agora diz que ninguém mais pode protegê-la da fúria de Edward além dele. Sério, me parece que alguém trocou as falas e ninguém percebeu.

Novamente mostrando que não sabe o que quer da vida, Bella passa boa parte do filme andando ou na caminhonete de Edward ou na garupa da moto de Jacob. E dá-lhe cenas de Edward sofrendo de ciúmes e de Jacob sem camisa dizendo que só ele serve para ela. Em outro momento de incoerência aguda, após passar os dois filmes flertando descaradamente com o pequeno indiozinho, Bella resolve lhe dar um soco justamente quando ele lhe rouba um beijo. A partir deste ponto, com menos de meia hora de filme, eu efetivamente parei de contar as incoerências do roteiro para não ficar nervoso.

A trama principal do filme, além do nhém-nhém usual, é a suposta criação de um exército de vampiros que chega à cidade com o objetivo (claro!) de matar Bella. Para evitar essa tragédia, lobisomens e vampiros devem se unir contra o inimigo comum e combater lado a lado. Para isso, devem aprender a atacar os vampiros recém-criados, que, segundo a lenda, são mais fortes do que os vampiros mais antigos. Só não me pergunte como.

Por conta dessa batalha, temos um dos momentos mais interessantes da saga, no qual Jacob, Edward e Bella têm de dividir a mesma barraca enquanto se escondem dos vampiros do mal. Numa cena rápida, mas extremamente curiosa, vampiro e lobisomem se encaram com tanta tensão que quase jogam Bella para fora da barraca e resolvem a situação ali mesmo. Ou quase isso.

Após esse momento Love me tender, a batalha final perde toda a sua função no filme, muito também por resolver-se em pouco mais de cinco minutos, com uma luta chinfrim entre vampiros vegetarianos, vampiros carnívoros e lobisomens carnívoros também. Há de se lamentar a presença totalmente dispensável de Bryce-Dallas Howard como a líder da gangue. Substituindo a atriz que fizera a vampira Victoria nos filmes anteriores, sua presença não se justifica de maneira alguma, pois seu papel é raso e, com certeza, o público-alvo do filme não faz a menor ideia de quem ela seja. Ah, e os Volturi também aparecem. Mas se não aparecessem, ninguém ia sentir falta.

Insistindo em só cravar suas presas – ou qualquer outra coisa – em Bella somente após o casamento, Edward mantém-se como o bastião da moral e dos bons costumes da cidade de Fork, perdendo apenas, de vez em quando, para o descamisado que mora na floresta. Mas, como sabemos, vampiros são para casar. Lobisomens, não.

De qualquer maneira, ainda sou Team Jacob.

2/5

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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