Crítica | Flor da Neve e o Leque Secreto

Um belo e vazio espetáculo

Embora trate de sentimentos fortes e autênticos, não há como negar que exista uma complicada artificialidade na maneira como o filme Flor da Neve e o Leque Secreto apresenta a relação existente entre as jovens Nina e Sophia, cuja história é passada na Xangai dos dias atuais e entre Flor da Neve e Lírio, ambientada em meados do século XIX. Baseado no livro homônimo escrito por Lisa See, Flor da Neve e o Leque Secreto é dirigido pelo cineasta chinês, radicado há mais de 30 anos nos EUA, Wayne Wang, de Cortina de Fumaça e O Clube da Felicidade e da Sorte.

Sob certos aspectos, e embora o filme descreva com certa sensibilidade as situações vividas pelas mulheres chinesas dentro de uma sociedade patriarcal e conservadora, é visível que o diretor Wang há muito tornou-se um estranho em sua terra, e o resultado disso é um filme plasticamente belo e de produção irretocável, mas irremediavelmente vazio em sua realização.

O filme abre mostrando a bem-sucedida executiva Nina prestes a assumir um importante cargo em um escritório que será aberto em Nova Iorque. Ao saber do acidente de sua amiga Sophia, atropelada por um táxi e que agora se encontra hospitalizada, Nina começa a relembrar o período em que se conheceram e em que se tornaram irmãs juradas para sempre por meio do laotong, uma espécie de contrato tradicional selado entre as amigas.

Ao mesmo tempo, Nina passa a ler os manuscritos de Sophia, que contam a história de duas amigas também unidas pelo laotong, cuja história começa no longínquo ano de 1829. À medida que vai conhecendo a história de Flor da Neve e Lírio, Nina compreende que muito do que passou com Sophia tem relação direta com os fatos ocorridos no passado – uma oportunidade para recuperar a amizade perdida e se redimir dos erros cometidos.

A efemeridade dramática da trama nem é o que incomoda mais. A partir do roteiro escrito a seis mãos por Angela Workman, Ronald Bass e Michael Ray, o diretor Wang faz algumas escolhas equivocadas que prejudicam o projeto de forma contundente. Não satisfeito em demonstrar a todo minuto a similaridade das situações vividas pelas duas mulheres nas diferentes épocas e sociedades, o diretor ainda faz questão de que as mesmas atrizes interpretem estes papéis. Assim, Nina e Lirío ficam a cargo da atriz Bingbing Li, enquanto Sophia e Flor da Neve são interpretadas por Gianna Jun.

Deste modo, Nina (ou Lírio) é sempre retratada como a amiga de vida estável, altruísta, preocupada e dedicada, enquanto Sophia (ou Flor da Neve) é apresentada como uma figura carente, errática e de atitudes irresponsáveis, algo que só sabemos porque o roteiro faz questão de colocar isso em diálogos expositivos, já que jamais vemos estas atitudes por parte da personagem. Se isso enfraquece a personagem de Sophia, pior fica para Nina, que se estabelece como uma figura basicamente intrometida sem que possamos compreender o porquê disso.

Assim, soa no mínimo estranho a sequência em que, ao conhecer o novo namorado de Sophia (Hugh Jackman, numa ponta descartável), Nina diz que a amiga deve se afastar dele para não repetir os erros do passado – que, aparentemente, só ela sabe quais são. Do mesmo modo, quando Lírio conhece a família de Flor da Neve, imediatamente assume que a amiga é infeliz e pede para que esta abandone seu lar e volte com ela para casa.

Mesmo as tragédias vividas pela dupla do passado, como epidemias e conflitos armados não conseguem evidenciar sua importância para o crescimento das protagonistas. A redundância do roteiro e da direção de Wang, presentes desde as legendas que informam a passagem do tempo, revelam-se de forma mais escancarada quando, em determinada sequência, o diretor coloca Nina frente a frente com Flor da Neve – chegando a seu ápice quando, ao fim do filme, mostra as amigas do passado tomando chá em um terraço da Xangai do presente, como se alguém ainda precisasse desta cena para entender a proposta do diretor.

Desperdiçando a oportunidade de discutir de forma mais relevante as questões da violenta tradição dos pés enrolados – lembramos desta questão apenas quando vemos as protagonistas andando de forma cuidadosa, mas sem jamais indicar qualquer sofrimento em relação a isso – o filme é visualmente deslumbrante, com uma direção de arte e uma fotografia obviamente caprichadas. Infelizmente, toda esta beleza esta a cargo de uma obra insípida, com um pé no piegas e com uma mensagem de  que ‘a amizade é eterna‘ digna de livros de auto-ajuda.

Snow Flower and the Secret Fan

EUA/China – 2011

Drama – 104 minutos

Direção: Wayne Wang

Roteiro: Angela Workman, Ronald Bass e Michael Ray, a partir do livro de Lisa See

Elenco: Bingbing Li, Gianna Jun, Vivian Wu, Hugh Jackman

 

 

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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