Crítica | Sherlock Holmes – O Jogo de Sombras
Não há como evitar comparações entre Sherlock Holmes – O Jogo de Sombras e a série Sherlock, atualmente em exibição pela BBC inglesa. Embora com conceitos e propostas totalmente diversas entre si, fica claro que, enquanto o Sherlock da televisão é uma das personificações mais perfeitas do detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle, a versão de Guy Ritchie não aspira tal ambição, visando a ser um competente filme de aventura com direito a muito humor, explosões, correrias e um protagonista carismático. E nada mais do que isso. Não que isso seja um problema. Muito pelo contrário.
Dando continuidade aos eventos ocorridos no filme de 2009, a trama deste é baseada muito livremente no conto O Problema Final, publicado originalmente em 1893. Desta vez, encontramos Sherlock literalmente alucinado com as supostas armações do professor James Moriarty, personagem clássico dos livros revelado no episódio passado, e com o casamento de seu amigo e parceiro de investigação John Watson. Buscando uma ligação entre uma série de atentados organizados por Moriarty e uma ameaça à vida da cigana Simsa (Noomi Rapace, a Lisbeth Salander original), Holmes parte para uma aventura que, no melhor estilo James Bond, passa por diversas localidades em países como a França, a Alemanha e a Suíça. Assim como no filme anterior, a história – que ainda envolve uma ameaça de guerra entre os países da Europa – é o que menos importa e a que se deve dar a menor atenção possível. Desta maneira, evita-se perceber os inúmeros furos na narrativa, assim como os desvios dispensáveis criados pelo casal de roteiristas Kieran e Michelle Multoney com o único objetivo de criar oportunidades para cenas de ação.
Seguindo à risca a cartilha definida para o primeiro filme, o diretor Guy Ritchie replica em Sherlock 2 todas as soluções visuais já utilizadas anteriormente. O que soava inovador daquela vez, porém, (como a antecipação dos movimentos dos oponentes de Sherlock e os flashbacks que complementavam algumas ações) torna-se irritantemente repetitivo e desnecessário, como a caótica sequência inicial e o primeiro encontro de Sherlock, no trem, com os soldados armados. A montagem de James Herbert, por sua vez, transforma a maioria das cenas de luta em algo ininteligível, com planos fechados e cortes abruptos que não permitem sequer entender o que está acontecendo. Por outro lado, o uso da câmera lenta rende pelo menos um ótimo momento, quando Holmes, Watson e um grupo de ciganos foge pela floresta em meio a tiros e explosões. É, mais ou menos como no filme anterior.
Retomando com gosto o papel que – ao lado de Homem de Ferro – o revelou para as novas gerações, Robert Downey Jr., desta vez, entrega um Sherlock Holmes mais acessível e menos egocêntrico, capaz de sorrir em momentos constrangedores e de demonstrar sua contrariedade no casamento de seu parceiro Watson. Cada vez mais como um verdadeiro casal (sem qualquer conotação sexual, que fique bem claro), Downey Jr. e Jude Law formam uma das duplas mais entrosadas do cinema nos últimos anos, dois homens que se gostam, se respeitam e que conhecem exatamente o pensamento um do outro, elemento esse que será essencial para a resolução da trama. Já Noomi Rapace, com seu tipo exótico e diferente, confirma ser uma atriz de presença marcante, mesmo com o pouco espaço dado a ela na trama. Entrando muito mais para ocupar a cota de uma presença feminina na história, sua plot sobre a busca de seu irmão acaba resultando como um dos mais fracos elementos do roteiro. Para compensar, o sempre excelente Stephen Fry aproveita todos os seus momentos em tela como Mycroft Holmes, o irmão mais velho e mais divertido de Sherlock.
Jared Harris (da série Mad Men e de Fringe), por sua vez, compõe o genial e maligno Professor James Moriarty como um homem elegante, de voz macia e olhar frio. Respeitado pela comunidade política e científica, Moriarty aproveita-se de seus relacionamentos e de sua fortuna para acumular poder, cujo magnitude é mostrada de forma inteligente pelo diretor na cena do restaurante com Irene Adler (Rachel McAdams, retornando para uma ponta rápida e importante – e infelizmente vítima de mais um daqueles flashbacks supérfluos). Aproveitando de forma eficaz a eterna metáfora do jogo de xadrez, Guy Ritchie transforma os embates verbais entre Holmes e Moriarty nos melhores momentos do filme, tendo seu ápice no tenso e inusitado terceiro ato, no qual, literalmente, os dois oponentes colocam suas peças em jogo, sacrificando peões e bispos para finalmente conseguir o xeque-mate.
A reconstituição de época e a fotografia, cortesia do mestre Phillipe Rousellot, como de praxe, são perfeitas, incluindo aí belas e virtuais tomadas de Paris e Londres do século passado em tons escuros e cinzas. A belíssima trilha de Hans Zimmer continua fazendo seu papel de forma eficiente, embora sejam perceptíveis, em um ou outro momento, ecos de seu trabalho com Chris Nolan, o que, vindo de Zimmer, nunca foi muita novidade. Contando ainda com alguns momentos engraçadinhos, como a curiosa (mas totalmente irreal) roupa de camuflagem e o pônei satânico, Sherlock Holmes 2 é uma aventura mais truncada e mais confusa do que o primeiro filme. Ainda assim, consegue se manter respeitosa ao material original e ser uma divertida opção para este começo do ano. Para ficar perfeita, basta menos explosões e mais cérebro. Como o Sherlock da BBC.
Posts relacionados




1 / 14 / 2012 17:30
Eu fiquei me perguntando de onde que eu conhecia o ator que fazia James Moriarty!!! Claro que era de “Mad Men”!!!! rsrsrsrsrsrs
Assisti hoje ao filme e gostei. Achei uma boa obra de entretenimento, com um excelente vilão. Guy Ritchie muito seguro. Edição perfeita. Adorei aquelas cenas com os efeitos visuais em câmera lenta, só achei que o diretor usou excessivamente esse recurso, e acaba perdendo o impacto na gente. Fora que a dupla Robert Downey Jr. e Jude Law continua afiadíssima.
1 / 14 / 2012 17:53
O Jared Harris, que é filho do Richard Harris, o Dumbledore himself, eu lembrava de Perdidos no Espaço (ele fazia o Will Robinson velho) e de Fringe. Não vejo Mad Men. Já tentei algumas vezes, mas não rola.
1 / 17 / 2012 15:34
“Para ficar perfeita, basta menos explosões e mais cérebro”. Belo arremate!
não acompanho séries – sei que perco muito com isso -, portanto não posso fazer comparações com o tão famigerado programa da BBC, mas falando apenas do filme do Guy Ritchie, assino embaixo da sua crítica. Nada de novo, nada de original em relação ao primeiro, mas ainda tão bom quanto.
Acharam que os buracos do roteiro iam ficar soterrados pela comicidade e pelas cenas de ação com cortes rápidos. Sério, para os realizadores, o que menos parece importar no filme é o tal “jogo das sombras”, e mais a dinâmica entre Sherlock e Watson e as gracinhas de seu protagonista.
Downey Jr, aliás, sensacional no papel-título. Definitivamente, é o seu papel ideal.
Abrasss
1 / 17 / 2012 15:48
Valeu Elton. Mas de uma chance para a série Sherlock. A primeira já tem em DVD, são só 3 episódios de 90 min (veja o primeiro e o último, o do meio é muito ruim). E a nova temporada já acabou também, são só 3 episódios. Vale a pena!