Crítica | Shame
Há algo em Shame, o novo filme do diretor Steve McQueen que nos remete diretamente ao antológico Réquiem para um Sonho, de Darren Aronofski, no qual também temos uma visão cruel das consequencias de um vício descontrolado. E embora Shame não chegue aos extremos do filme de 2000, é tão contundente quanto ao mostrar a completa degradação física, psicológica e moral a que se entrega Brandon Sullivan, o personagem interpretado com maestria e dolorosa abnegação por Michael Fassbender.
E, que fique claro, o vício de que falamos aqui não é relacionado a drogas, álcool ou jogo. Estamos falando de sexo, que aqui se transforma em uma busca cega pela satisfação – não de um desejo, mas de uma necessidade incondicional de se chegar ao orgasmo, que neste caso pode significar qualquer coisa, menos prazer. O sexo para Brandon é sacrificante e solitário, mesmo quando praticado com alguém.
Morando sozinho em um apartamento em Nova Iorque, Brandon dedica a maior parte de seu tempo ao sexo, seja se masturbando constantemente e acessando chats e sites pornográficos – inclusive durante o expediente -, contratando garotas de programas ou encontrando parceiras em suas saídas à noite pela cidade. O diretor McQueen deixa claro, desde o início, que, para Brandon, todas as pessoas com quem se relaciona nada mais são do que simples corpos para que ele chegue a seu objetivo. Por conta disso, é comum não vermos o rosto das garotas de programa que diariamente invadem seu apartamento. Uma, duas ou dezenas de garotas, para Brandon não importam seus nomes ou seus rostos, apenas que possam estar disponíveis quando a necessidade falar mais alto.
Para isso não lhe faltam oportunidades. Boa-pinta e com uma boa conversa, Brandon é naturalmente assediado nos bares e restaurantes que frequenta. Sua fama e experiência com as mulheres fazem com que até seu chefe compartilhe de suas saídas noturnas em busca de uma escapada casual. Mesmo nestes momentos, é evidente o desconforto de Brandon em exercitar seu lado social. Para ele não interessa o flerte ou a conversa, apenas a transa.
O roteiro de Abi Morgan (de Dama de Ferro) e a direção de McQueen são hábeis em estabelecer Brandon com alguém isento de personalidade. Vestindo rigorosamente sempre a mesma roupa, seu apartamento é de uma frieza cortante, repleto de livros e alguns móveis, mas sem nenhum retrato ou quadro na parede. As janelas, imensas, permitem que ele possa ter uma visão completa da cidade. Encarcerado à sua torre de vidro, resta a Brandon aplacar seu desejo com quem se habilita a conhecer sua prisão.
A rotina de Brandon é quebrada quando ele recebe a visita de sua irmã Sissy (Carey Mulligan), que chega para passar uns dias com ele. Assim como Brandon, Sissy é uma pessoa com problemas. Frágil, ela passa, por meio do olhar, uma ternura misturada com uma tristeza imensa, retratada magistralmente por McQueen na longa sequencia em que ela canta New York, New York em um barzinho no qual se apresenta.
Neste momento, é possível compreender que estamos diante de duas pessoas destroçadas e solitárias, mesmo numa das maiores cidades do mundo. A cada uma delas resta decidir como irá lidar com essa estranha melancolia que as assola. Ao contrário de Brandon, porém, a carente Sissy não a canaliza para algo concreto como o sexo intermitente – e por isso mesmo a relação entre os dois estremece cada vez mais.
O filme nunca deixa claro qual a questão que envolve os dois irmãos. Pode-se deduzir que ambos sofreram abusos na infância – e o filme ainda sugere que algo possa ter acontecido entre os irmãos. Mas isso é especulação. O que a presença de Sissy em seu apartamento representa, efetivamente, é não apenas a invasão de uma imprescindível privacidade que Brandon necessita, mas também um olhar externo sobre seus atos, fazendo-o enxergar a precariedade de sua vida miserável.
Assim como um viciado em bebidas joga fora todas as garrafas, Brandon, em certo instante, livra-se de todas as suas fitas VHS, DVDs, revistas, acessórios pornográficos. Caixas e mais caixas. O que poderia significar uma redenção, porém, acaba revelando o alcance de sua impotência em relação ao vício. Incapaz de se relacionar co uma colega de trabalho (alguém com quem ele realmente deseja estar), Brandon só consegue desempenhar com outra garota de programa (alguém que ele não faz a menor questão de saber quem é).
Essa visão de suas conquistas e suas transas como simples receptáculos para sua necessidade culminam na angustiante sequencia em que ele, na busca de algo para copular, adentra um clube gay para uma transa homossexual e em seguida parte para um ménage a trois com duas prostitutas. A conclusão é evidente: para Brandon, não importa quem seja o objeto da transa, mas apenas que ela aconteça. E, na interpretação magistral de Fassbender, sua própria existência é um sofrimento.
Assim como em sua obra anterior, Hunger (2008), que narrava a greve de fome do militante do IRA Bobby Sands (também interpretado por Fassbender), McQueen trabalha com muitas sequencias estáticas e sem corte, como nas longas sequencias do restaurante e da corrida noturna pela cidade. Aliado a uma trilha contundente de Harry Escott e a fotografia contrastante de Sean Bobbit, Shame transforma-se em uma experiência excruciante, tão distinta do que estamos acostumados que nos sentimos constrangidos pelo que vemos – não pelas inúmeras cenas de sexo ou de nudez, mas pela profundo mergulho na alma de uma pessoa com a triste sina de somente conhecer a dor em algo que deveria representar um momento de êxtase.
Por isso mesmo, as sequencias que abrem e fecham o filme são exemplares para o entendimento da obra. Se na primeira vez em que ele vê a garota no metrô, ele a enxerga somente mais uma oportunidade para o sexo, deixando-a nitidamente coagida, na última fica claro o constrangimento e a angústia de Brandon por não conseguir compreender que é possível uma conexão mais forte que apenas a física.

Direção: Steve McQueen
Roteiro: Abi Morgan, Steve McQueen
Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan
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3 / 19 / 2012 15:51
Filme doloroso e cru. Adoro a maneira desinibida e realista que McQueen guia sua história. Bacana notar que sempre que Brandon entra no trem tem algum tipo de placa/poster que demonstra algo importante naquele momento. E acho marcante, algo que esqueci de citar na minha crítica, quando Brandon finalmente percebe que sua irmã é uma potencial suicida e onde? Na mesma estação que ela brincou uma vez de pular. Juro que pensei que era ela que estava morta na estação naquele momento. Brandon foi mais esperto que eu e foi em direção a sua casa. Muito bom!
Abração.
3 / 19 / 2012 16:08
Confesso que até comecei a notar, mas deixei passar as mensagens das placas. Preciso ver de novo. E o interessante é que o ‘polêmico’ aspecto da nudez do Fassbender (ou como eu digo, do Michael do Fassbender), pra mim é fichinha perto do desnudamento psicológico retratado ali. Filmaço.
3 / 19 / 2012 20:23
Shame é um filme brilhante Márcio. Realmente chega a remetar “Réquiem”, mas acho que a fita de McQueen é ainda mais dolorosa. Não sentimos prazer pelas cenas, não vejo erotismo,sensualidade é tudo um pesadelo cruel.
Sangue, esperma, dor…é muito tenso!
Fassbender e Mulligan totalmente entregues nos papéis. Os longos takes e as cenas iniciais com pouco diálogos são de arrasar, Vou rever, agora no cinema mesmo!
Um dos melhores do ano passado e uma pena que tenha sido ignorado no Oscar.
Abraço.
3 / 20 / 2012 21:40
Pela primeira vez, minha impressão final vai no sentido oposto ao dos comentários sempre brilhantes do Márcio Santos. Embora tudo que ele tenha dito seja verdadeiro, a história me pareceu vazia, linear, chocha, sem revelações. Não acontece nada de inesperado. A situação de um viciado (qualquer que seja o vício) é sempre aquela retratada no filme. Não vi nada de novo ou diferente. A realidade é mais terrível que o filme. Quem já conheceu pessoas viciadas conhece o roteiro, sempre igual. Aliás, algo que me pareceu francamente mal colocado no filme é a cena em que ele cheira cocaína – isso tira totalmente a força do vício em sexo. Devo dizer também que fui influenciado pelo incômodo causado pelo ambiente do cinema: eu estava sozinho, cercado por casais jovens praticamente “se comendo” durante o filme, como se estivessem num filme pornográfico, numa espécie de “antiexpectativa” completa… Nada contra, mas os casais me pareceram francamente deslocados, o que me incomodou (assim como os ruídos típicos emitidos por eles durante o filme).
3 / 25 / 2012 20:43
“Tudo depende de gosto e sintonia, não é? Achei o filme muito bom, mas devo assumir que entrar em equilíbrio com o ritmo tão pesado me tomou quase metade dele. No campo do simbolismo, a atmosfera parada é bem encaixada e digna de aplausos. Porém, numa interpretação mais livre [...]”
http://www.beepbopboom.com.br/2012/03/shame.html
3 / 26 / 2012 22:45
Estava bastante ansioso por este filme.. agora ainda mais! A propósito, gostei dessa comparação com os alcoolatras….