Crítica | Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Uma conclusão digna e emocionante para a saga do homem-morcego
Em Batman Begins, o primeiro filme da saga dirigida por Chistopher Nolan, a cidade de Gotham City nada mais era do que um mix de efeitos digitais e cenários obscuros. Já em O Cavaleiro das Trevas, Gotham assumia as luzes e as formas da cidade de Chicago. Agora, Nolan ambienta a conclusão de sua trilogia na cidade de Nova York, não apenas uma das maiores cidades do mundo mas protagonista de uma das maiores tragédias da história recente.
A ampliação do escopo não é gratuita. Ambicioso e grandiloquente, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um espetáculo poderoso que, mesmo com alguns problemas pontuais, fecha de maneira brilhante esta trilogia do homem morcego e posiciona Christopher Nolan como um dos poucos cineastas capaz de insuflar genialidade no tão combalido gênero dos blockbusters.
Passado oito anos após os acontecimentos vistos em O Cavaleiro das Trevas, o filme mostra que, graças ao sacrifício de Batman para manter intacto o nome de Harvey Dent – e ao trabalho determinado do Comissário Gordon (Gary Oldman) – Gotham City tornou-se uma cidade pacífica, sem crimes, na qual um vingador mascarado não é mais necessário.
Destroçado física e psicologicamente, Bruce Wayne vive agora recluso em sua mansão, tendo que proteger sua empresa dos olhares da filantropa Miranda Tate (Marion Cotillard) e do milionário Dagget (Ben Mendelhson), ambos com interesse em uma invenção capaz de eliminar a crise de energia mundial. A chegada do mercenário e terrorista Bane (Tom Hardy), que ameaça destruir a cidade de Gotham, fará com que o Batman tenha de sair de sua aposentadoria forçada, envolvendo-se ainda com a ladra Selina Kyle (Anne Hathaway) e com o jovem e idealista policial Blake (Joseph Gordon-Levitt), contando sempre com a ajuda dos leais Alfred (Michael Caine) e Lucius Fox (Morgan Freeman).
Se em O Cavaleiro das Trevas Nolan criou um potente drama policial cujos antagonistas eventualmente usavam máscaras e maquiagem, aqui ele retorna sem pudores ao universo fantasioso dos quadrinhos – com uma pitada deliciosa do gênero que fez a fama do agente James Bond – repleto de vilões com planos mirabolantes (e que são repetidos a cada cinco minutos), mocinhas de caráter duvidoso, armas de destruição em massa e situações limites que são resolvidas no último segundo.
A trama mais convencional – comparativamente com a ousadia temática do filme que tinha o Coringa como um transloucado agente do caos – poderia até ser entendida como um retrocesso por parte de Nolan, um recuo criativo ou uma condescendência com os fãs, mas seu objetivo aqui é claro. O que importa neste momento não é uma trama mirabolante, mas sim uma discussão sobre a própria natureza do herói: o sacrifício, a perda, o medo, a coragem e a busca – por mais clichê que possa parecer – pelo bem comum. Mesmo que estes elementos já tenham sido vistos nas obras anteriores, em Ressurge Nolan leva estes questionamentos a níveis pouco vistos ou imaginados em um filme de super-heróis.
Não por acaso, Bruce Wayne encara seu retorno como Batman não como uma oportunidade de reviver seus bons tempos – muito pelo contrário. Perseguido pela polícia e virtualmente sozinho em sua empreitada, Batman vê sua volta como um doloroso esforço pessoal (e os urros emitidos durante sua luta com Bane ressoam tanto o sacrifício físico do momento como a compreensão absoluta da solidão de sua empreitada), para o qual não haverá, jamais, reconhecimento ou redenção.
Seja como Bruce Wayne como Batman, Christian Bale entrega uma interpretação primorosa, revelando aos poucos sua destruição – representada pela recém-construída Mansão Wayne, grandiosa e vazia, com móveis eternamente cobertos por lençóis -, incapaz de seguir em frente e preso a um passado heroico sem o qual não consegue sequer se definir como pessoa. Somente quando vê a oportunidade de voltar como Batman é que vemos uma centelha de vida e de desejo voltando ao corpo de Wayne. Como veremos, porém, isso não será o suficiente.
O tom solene constante transforma O Cavaleiro das Trevas Ressurge em uma experiência dolorida - do lado de cá e do lado de lá da tela – na qual há poucos momentos de tranquilidade. Ainda assim, Nolan conduz a trama com um ritmo absolutamente conciso – quando necessário – e dinâmico nas contundentes cenas de ação. Mesmo assim, a trama – escrita pelos irmãos Chistopher e Jonathan Nolan, a partir de uma história de David S. Goyer – não escapa de alguns exageros no excesso de subtramas e de novos personagens.
Assim, o filme perde um tempo precioso com personagens descartáveis como o milionário Dagget e o policial interpretado por Mathew Modine, ao passo que personagens importantes como o Comissário Gordon e Miranda Tate são tristemente subaproveitados – passando todo o filme em branco, retornando apenas no terceiro ato -, num claro desperdício do talento destes dois excelentes atores.
Ao mesmo tempo, não há como negar que a adição do jovem policial Blake e de Selina Kyle ao rol de personagens da saga se mostram como um excelente acerto. Gordon-Levitt confirma-se como um dos talentos da atual temporada entregando um personagem que mescla o instinto de justiça de Batman com a inquietude e a impetuosidade de Jim Gordon. Já Anne Hathaway transforma sua Selina Kyle em uma ladra habilidosa cuja lealdade é sempre questionável – e mesmo que jamais seja chamada de Mulher-Gato, sua transformação no personagem icônico ocorre de forma natural e orgânica.
Já Tom Hardy emerge como uma força incontrolável da natureza. No papel do terrorista Bane, Hardy contorna o problema de estar o tempo todo com uma máscara sobre o rosto – o que, supostamente, tolheria sua atuação – investindo numa interpretação física e num composição vocal que o transformam em um personagem ameaçador, cuja voz elegante e irônica disfarçam sua ferocidade e sua insana crueldade.
Capaz tanto de inspirar a maior lealdade possível de seus capangas como de descartá-los ao menor sinal de insatisfação, Bane assemelha-se ao Darth Vader de O Império Contra-Ataca uma referência mais do que evidente. Com físico bombado de fisiculturista, Bane não é apenas um fortão descerebrado, mas um vilão com um plano claro e incapaz de desviar-se dele por sequer um minuto. Ao contrário do Coringa, que via no Batman o reflexo distorcido de sua personalidade, Bane busca apenas destruir o morcego em todos os aspectos.
A fotografia de Wally Pfister aproveita os horizontes de Nova York para estabelecer o caráter épico do filme de forma definitiva, transformando Gotham City numa cidade fria, suja e sem cores, caráter esse reforçado pelo clímax que acontece durante o inverno. Já a trilha de Hans Zimmer – mesmo que em alguns momentos torne-se excessiva – surpreende por manter o já clássico tema do Batman e inserir elementos ritualísticos nas sequências envolvendo Bane e sua onda de destruição pela cidade.
As cenas de ação orquestradas por Nolan são por si acachapantes, ampliadas pela inclusão do Morcego, uma espécie de tumbler voador que transforma as ruas de Gotham City em cenário de perseguições aéreas que evidenciam a qualidade dos efeitos especiais da equipe do diretor, uma adepto ferrenho dos efeitos mecânicos. Apesar disso, o que marca o filme são os impressionantes embates entre Bane e Batman, amplificados com uma edição de som não menos que admirável.
A edição do filme, a cargo de Lee Smith, apesar do bom trabalho, comete algumas falhas notáveis, como uma perseguição que começa durante o dia e – exatos cinco minutos em tempo real depois – termina durante a noite, sem a menor possibilidade de um crepúsculo pelo meio. Por outro lado, é notável a maneira como meses são encurtados de maneira eficiente e como onze fatídicos minutos finais estendem-se até o limite do suportável, sem contar a montagem paralela que já havia sido levada à perfeição em A Origem.
Ainda assim, é preciso uma grande boa vontade por parte do espectador em aceitar que, por exemplo, policiais que estão há meses presos em um túnel saiam felizes, fortes e radiantes prontos para brigar com uma milícia bem treinada e alimentada. Ou que a identidade de Batman continue como uma incógnita quando todos os capangas de Bane sabem deste segredo. Ou mesmo que Bruce Wayne retorne à Gotham exatamente no dia em que a bomba irá explodir. E se o aeroporto estivesse fechado?
Fazendo referência direta a elementos e personagens do primeiro filme, O Cavaleiro das Trevas Ressurge é rico em rimas visuais e temáticas, que vão desde o poço onde Wayne é mantido prisioneiro e sua relação com o poço em que caíra quando criança (uma ótima versão de Nolan para o poço de Lazarus dos quadrinhos), até o destino da filha de Ra’s al Ghul, morta exatamente como o pai: a bordo de um veículo carregando uma arma inexpugnável.
Com um clímax absolutamente devastador – no qual se destaca a pungente interpretação do veterano Michael Caine, responsável pelos mais emocionantes momentos o filme – O Cavaleiro das Trevas Ressurge conclui a saga do homem-morcego elevando o filme de super-heróis a um patamar inquestionável de qualidade e excelência, uma obra capaz de entreter e fazer pensar, capaz de emocionar e divertir.
Vistos em conjunto, o que fica é uma obra de extrema coerência que fecha um ciclo – mas não o encerra – e que compreende, como poucas, o que é necessário para se fazer – e destruir – um herói.
Não importa se é Bruce Wayne ou não: o dia sempre será salvo pelo Batman.
The Dark Knight Rises
EUA – 2012
Ação – 165 minutos
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan, David Goyer
Elenco: Christian Bale, Anne Hathaway, Tom Hardy, Michael Caine, Gary Oldman, Marion Cotillard
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7 / 28 / 2012 21:12
Muito legal sua crítica. Eu curti bastante o filme, mas ainda acho o segundo um pouco mais legal, tem um tom muito mais “épico” que o terceiro, que deveria ser realmente épico para fechar a trilogia com tudo, mas ficou devendo. Só que tudo bem, ainda assim é um filme excelente, né?
Concordo sobre a trilha sonora ser exagerada em alguns momentos, foi algo que me chamou a atenção. Mas eu não tinha pensado nessa coincidência sobre o momento em que o Wayne chega em Gotham, HAHAHA.
E eu adorei o destino do Blake, especialmente porque, desde que anunciaram o casting do Gordon-Levitt, eu apostava com todo mundo que… sem spoilers, aquele seria o destino dele, por mais que Nolan e todo mundo tenham jurado de pés juntos que não seria.
Que ótimo filme, não? Nolan sabe como deixar a plateia morrendo no cinema, só que, pra mim, a impressão que fica é de que faltou alguma coisa para ser um filme nota 10. O terceiro ato é excelente, mas o segundo eu senti que ficou meio avulso… Talvez porque eu estava ansioso para saber como terminaria a saga em si, e não a história que este filme contava por si só… Enfim…
7 / 28 / 2012 21:31
Com certeza o segundo é mais redondo em termos de filme – e este tinha a obrigação de terminar as coisas de forma (quase) definitiva. Tanto que os meus questionamentos sobre este ou outro ponto estão bem claros. Mas o filme consegue – no contexto geral – ser tão espetacular que estes problemas não me afetaram. TDK ainda é mais filmao, mas TDKR foi a conclusão perfeita pra saga!
7 / 29 / 2012 17:03
Ótima crítica, Marcio!
Gostei mt qd comenta da trama convencional que possui TDKR e a forma que Nolan explorou essa questão, mesmo com clichés, de forma vigorante. Em comparação aos exemplares anteriores, esse é mais adrenalina, é mais centrado na resolução dos casos, embora encontre espaço para reflexões – ainda que não tão profundas quantos os outros 2 filmes. Mas é ótimo, não repreendo e nem desmereço o excelente final da trilogia por essa escolha. Fechou com magnitude e dignidade, o que já era de se esperar.
Abraço!
8 / 2 / 2012 15:24
Fantástico, épico, o desfecho do filme. Com certeza Nolan surpreendeu não somente os críticos mas também os mais jovens assíduos do meio. Acredito que tudo se encaixou, mas a única coisa que achei fantástica é Nolan simplesmente “cagar” para o Coringa neste filme. Um excelente e incrível personagem que não morre, mas ao mesmo tempo, morre, se é que me entende Marcio. Passei quase as 3 horas na sala prestando atenção se ele ao menos tocasse no nome dele. Mas não, o caminho foi totalmente inverso, com muita demolição, força, coragem, medo e novos personagens que nos quais deixam o telespectador na fissura de querer saber o que irá acontecer no próximo minuto.
Ah, e o que falar da “Mulher-Gato” que na verdade nunca foi dito no filme, ao contrário dos outros anteriores, nunca apareceu nenhum gato no meio das cenas, e o que o povo pensa? Ah, aquela é a mulher-gato! Fantástico, e assim, ela fazer com que Bruce acorde para a vida, roubando-o na cara dele, é incrível!
bem.. E este final? Senssacional, com uma vontade de querer mais. Nolan não só fez o que todos esperavam mas também deixou para que outros continuassem o seu grandioso trabalho!
Desculpe pelos spoliers, rsrs.. mas como na sua crítica contém pequenos pontos, aproveitei a onda, mas na verdade posso ter exagerado..
Abs Marcio!!
8 / 2 / 2012 20:58
Na verdade, conta a lenda que o Coringa teria uma participação importante no filme – ele seria alguém com quem o Batman iria meio que conversar/se aconselhar/ desabafar sobre o que acontece na cidade – mas com a morte do Ledger, o Nolan cortou tudo que fosse referencia a ele. Tenho pena de quem vai continuar a saga do morcego depois do Nolan ,,,,
8 / 13 / 2012 15:59
Poxa, gostei bastante, mas enquanto assistia, não fiquei tão empolgado quanto fiquei ao ver o 2° filme. A história ser um pouco mais mirabolante que as anteriores não me incomodou, afinal estamos falando de um universo que tem sua origem nos quadrinhos, mas os furos e pontos soltos tiraram um pouco a qualidade da trama.
Gostei bastante do Bane, exceto pela sua morte completamente sem graça no final. Também não gostei da atuação da Marion Cotillard (principalmente no momento da sua morte), o que também foi decepcionante para mim, pois adorei sua atuação no filme A Origem, também dirigido por Nolan.
O importante é que no fim das contas o filme é bom e o diretor conseguiu fechar bem a obra, mesmo que deixando em aberto a possibilidade de alguns personagens (Selina e Robin) serem explorados em outros filmes.
8 / 21 / 2012 10:20
Excelente crítica amigo, a melhor que vi de muitas!! sem comentários!!! brilhante parabens pelo feeling e pela maneira habilidosa e apaixonante como descreveu tudo, otimo!
9 / 19 / 2012 9:14
Adorei o filme – e sua excelente crítica!