Crítica | On The Road – Na Estrada

Walter Salles adapta com maestria o complexo clássico de Jack Kerouac

O estilo pé-na-estrada de Walter Salles é bem conhecido pelo público. Consagrado em Hollywood depois do brilhante Central do Brasil - que rendeu à Fernanda Montenegro uma indicação inédita ao Oscar – e do bem dirigido Diários de Motocicleta, Salles foi escolhido pessoalmente pelo cineasta Francis Ford Coppola (detentor dos direitos do romance On The Road) para a difícil tarefa de adaptar para as telas o clássico de Jack Kerouac. Com muita competência, e dando à obra a sua cara, o brasileiro obteve sucesso na empreitada.

Com a produção executiva de Coppola e o roteiro de Jose Rivera (Diários de Motocicleta), Na Estrada começa mostrando a que veio: encarnado por Sam Riley (Control), o protagonista Sal Paradise surge como um viajante sem rumo pelas estradas dos Estados Unidos. Pseudônimo do escritor Kerouac, Sal pega carona num caminhão rumo a Denver, cidade de seu companheiro inveterado Dean Moriarty (Garrett Hedlund, de Tron: O Legado). Para explicar como os amigos se conheceram, temos um longo flashback que corta a linearidade do roteiro, mas de forma alguma o prejudica.

Assim, voltamos cinco meses no tempo. Na Nova York de 1949, vemos o enterro do pai de Sal Paradise. Vivendo com a mãe num confortável apartamento, mas sem ideias para escrever seu tão desejado livro, Sal conhece Dean Moriarty através de um amigo em comum, o intenso Carlo Marx (Tom Sturridge). O primeiro encontro acontece no apartamento de Dean, onde ele transava com a jovem esposa Marylou (Kristen Stewart, felizmente fora da áurea medíocre da saga Crepúsculo).

Magnetizado pela presença de Dean, Sal passa a viver ao seu lado dali em diante, seja para frequentar bares e conhecer novas pessoas – a sequência com Terrence Howard é muito bem empregada – como para cair, definitivamente, na estrada. Baseando suas aventuras no que leu de autores como Proust, Sal vê no amigo a fonte de inspiração para seu romance. Voltando para o momento inicial do longa, temos Sal indo ao encontro de Dean em Denver, sua cidade natal.

A tônica do filme, como não poderia deixar de ser, são as várias idas e vindas pelo interior dos EUA. Acompanhado ou não por Dean e Marylou, Sal conhece inúmeras pessoas, como a humilde Terry (Alice Braga, numa participação rápida) e um motorista que dirige sem o dedão do pé (levando dinamite).

De Nova York a São Francisco, Walter Salles ambienta o espírito da época (o nascimento da contra cultura americana) com o auxílio de uma fotografia competente (de Éric Gautier) e de participações muito bem-vindas. Old Bull Lee surge crível – e muito excêntrico – na pele de Viggo Mortensen, assim como sua exótica esposa Jane (Amy Adams, bem diferente do que vimos em Julie & Julia). Da mesma forma, a sequência com Steve Buscemi é inquietante, ao mesmo tempo em que demonstra a falta de limites dos atos de Dean para sobreviver em sua vida errante.

E se ir e vir pela terra do Tio Sam pode ficar repetitivo em mais de duas horas de filme, Rivera resolve a questão com uma bem humorada (e decisiva) passagem de Sal e Dean pelo México. Com bagagem de sobra para seu livro (cinco anos se passam de uma ponta à outra do longa), Sal precisa decidir o que fará dali para frente, com ou sem a companhia do amigo.

Tecnicamente impecável, On The Road apresenta poucas falhas em seu roteiro. O maior deslize, por assim dizer, está nas ações dos protagonistas. Apesar do carisma e paixão com que vive Dean Moriarty, o jovem Hedlund deixa a desejar em alguns momentos dramáticos, principalmente aqueles ao lado da segunda esposa, Camille (muito bem interpretada por Kirsten Dunst). Sam Riley também peca pela simplicidade com que segue o amigo a torto e a direito, demorando a perceber sua imaturidade.

Por outro lado, a Marylou de Stewart tem tudo o que falta a insossa Bella Swan: energia, vivacidade (sempre com um sorriso no rosto, aconteça o que acontecer) e tesão. Em todos os sentidos, já que a censura de 16 anos não está ali por acaso. Aliás, por todas as complexas temáticas abordadas (sexo, drogas e muito autoconhecimento), caberia uma classificação 18 anos, sem dúvida…

Eficaz na condução do longa, Walter Salles emplaca mais um sucesso em sua carreira. On The Road traz tudo o que era esperado, sem muitas surpresas e fiel ao espírito de Jack Kerouac, apesar das diferenças inevitáveis que surgem numa adaptação cinematográfica.

PS: A censura 16 anos atrai o público “crepusculete”, que pode não entender o contexto geral da obra. Preste atenção aos comentários adolescentes na saída do cinema!


On The Road

EUA/França – 2012

Filme – 137 minutos

Direção: Walter Salles (produzido por Francis Ford Coppola)

Roteiro: Jose Rivera, baseado no livro homônimo de Jack Kerouac (de 1957)

Elenco: Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Tom Sturridge e Amy Adams

Sobre o autor
André Nunes

André Nunes

André Nunes é estudante de Jornalismo, cinéfilo em treinamento e nerd desde criança.

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