Crítica | Valente (II)

Visualmente maravilhoso, o filme está longe do brilho dos clássicos da Pixar

Era previsível, mesmo que não desejável, que, em algum momento de sua extremamente bem-sucedida lista de sucessos, a Pixar começasse a mostrar um certo desgaste de sua fórmula. Depois de uma sequência inequívoca de obras-primas nos últimos anos (que começam em Ratatouille, passam por Wall-e, UP e desembocam no maravilhoso Toy Story 3), a receita começou a desandar com o bonitinho mas ordinário Carros 2.

Que fique claro, porém, que Valente está longe de ser um filme ruim. É, em última instância, a melhor animação vista nas telas em 2012. Mas, vindo de um estúdio que já nos deu Procurando Nemo e Monstros S/A, é triste perceber que a Pixar – cuja excelência técnica só era comparável com a inteligência de seus roteiros – está se tornando um estúdio comum, sem a originalidade e a criatividade que fizeram seu nome na história do cinema.

O filme, dirigido por Mark Andrews – finalizando o trabalho de Brenda Chapmann, substituída durante a produção – conta a história da princesa Merida (no original, com a voz de Kelly Macdonald), uma jovem de espírito independente que vive um constante conflito com sua mãe, a rainha Elinor (Emma Thompson). Dedicada a sua casa (ou a seu castelo) e ao marido, o rei Fergus (Billy Connolly), a rainha tenta moldar a filha ao comportamento típico e esperado de uma princesa, além de obrigá-la a um casamento arranjado com um dos primogênitos dos clãs que fazem parte do reino, nas belas e longínquas terras da Escócia medieval .

Desde pequena, porém, a garota sempre primou por sua liberdade – representada de forma espetacular por seu cabelo vermelho encaracolado e por sua perícia no arco e flecha – e imaginar-se como uma princesa servil é um pesadelo em vida. Assim, Merida acaba fazendo um acordo com uma bruxa para que seu destino possa ser alterado. Como sempre acontece com qualquer acordo feito com bruxas, a coisa não sai como se espera e o resultado é que sua mãe é transformada em um urso. Resta a Merida tentar reverter o feitiço e, claro, se acertar com sua mãe.

Embora Valente até se apresente como o primeiro filme com uma protagonista feminina da Pixar, fica claro que a temática supostamente feminista da história acaba sendo soterrada por um tom altamente moralista em sua conclusão (o que discutiremos mais a frente).  E por ser escrito a oito mãos, o roteiro do filme se ressente da unidade e da clareza assombrosas das produções anteriores da Pixar, revelando-se uma colcha de retalhos que vai deixando pontas soltas ao longo da trama (como a bruxa – tirada diretamente de A Viagem de Chihiro, do mestre Hayao Miyasaki – que surge e desaparece da trama sem explicação), sem contar os inúmeros personagens e situações absolutamente inúteis (como os pretendentes de Merida e os três irmãos gêmeos, responsáveis pelos momentos engraçadinhos do filme – que literalmente entram mudos e saem calados -, mas que poderiam ser substituídos sem nenhum problema por, sei lá, um camaleão chamado Pascal).

Reciclando ideias, personagens, cenários e situações já vistas no superior Como Treinar o Seu Dragão, o filme ainda se mostra equivocado em suas piadas, que raramente funcionam e que escorregam perigosamente para o humor escatológico comum aos filmes da concorrente Dreamworks. Para piorar, fica a incômoda sensação de que os diretores não souberam acertar o tom nos momentos da transformação da rainha, que ora soam divertidas (como quando ela tenta se vestir com as roupas reais), ora surgem com uma melancolia incomum ao gênero, sem que o espectador possa definir seu sentimento em relação ao que está assistindo.

Há, porém, algumas ideias que funcionam de forma eficiente. Dispostos a mostrar fisicamente como Merida sente-se oprimida por sua mãe, os realizadores são inteligentes ao deixar uma única mecha de seu cabelo vermelho saindo por baixo do apertado traje utilizado durante o torneio real. Do mesmo modo, é infalível a estratégia usada para mostrar como a rainha vai aos poucos permitindo que o lado animal tome conta de sua consciência – inicialmente deixando de lado a sua coroa e, porteriomente, passando a andar de quatro patas.

E mesmo que alguns deles soem óbvios, são interessantes os momentos em que os diretores demonstram a dificuldade de diálogo entre a rainha e sua filha (inicialmente com uma montagem em que a rainha conversa com o rei e a princesa responda em outro local e, posteriormente, com a rainha, já transformada em urso, tentando se comunicar com a filha), a curiosa troca de papéis entre mãe e filha, com a princesa Merida ensinando e cuidando da rainha na floresta e a maneira como a rainha passa a arrumar seu cabelo ao fim do filme.

Visualmente magnífico, Valente é mais um trabalho que mostra porque, tecnicamente, ninguém ainda é páreo para a Pixar. As paisagens da Escócia, com seus castelos, montanhas, lagos e florestas são a desculpa perfeita para que os animadores criem um universo praticamente palpável, de cores vibrantes, quando necessário, e de tons sombrios como poucas vezes visto em um filme do estúdio – em especial às cenas passadas ao entardecer e em meio a névoa espessa. A floresta que circunda o castelo do rei se estabelece, assim, como um ambiente jamais amigável, no qual transitam estranhos seres de luz e estruturas rochosas que fazem menção a antigas seitas. A transição do vestuário de Merida, dos tons claros que vão aos poucos sendo substituídos pelos tons escuros – que traçam um contraste contundente com os caracóis vermelhos de seu cabelo –  também é um achado da produção

Do mesmo modo, é reconfortante saber que o estúdio não se preocupou em amenizar o tom sombrio e violento de diversas sequências, chegando ao ponto de ficarmos realmente preocupados com o destino das protagonistas, com uma sombra de uma perigo permanente rondando a trama – mesmo que a origem do vilão do filme soe como uma muleta dos roteiristas para criar um escopo histórico e espiritual maior – sem resultado.

Concluindo o filme da maneira mais burocrática possível – e resolvendo os conflitos entre mãe e filha de forma rápida e artificial – , os realizadores não se importam em apelar para clichês do tipo ‘somos livres para escrever nossa própria história e livres para seguir nossos próprios corações‘ . Isso sem contar com os números musicais, que parecem tirados diretamente da animação Enrolados.

E embora o filme fale o tempo todo em liberdade, é relevante perceber como os roteiristas sabotam constantemente esta ideia, fazendo com que todas as ações de Merida mostrem-se desastrosas ou egoístas, eventualmente mostrando a princesa não como uma pessoa em busca de sua identidade, mas como uma adolescente mimada que disputa com sua mãe a atenção e o carinho do pai.

Este viés psicológico até poderia tornar o filme mais interessante, mas não é o que acontece. O que fica, ao fim da trama, é a história de uma garota que, segundo os roteiristas, deveria ouvir mais a sua mãe – e não se meter a fazer coisas que não deve.

Para um estúdio que, em outros tempos, colocou uma ratazana seguindo seu sonho de cozinhar num restaurante em Paris, é um retrocesso. Valente é um belo filme que consegue até emocionar em um momento ou outro. Mas não faz juz ao nome da Pixar.

PS1: Há uma cena rápida (e meio desnecessária) ao fim dos créditos

PS2: O curta La Luna é bonitinho. E só.

PS3: A dublagem é uma das mais fracas dos últimos anos.

Brave

EUA – 2012

Animação - 103 minutos

Direção: Mark Andrews e Brenda Chapman

Roteiro: Brenda Chapman e Irene Mecchi

Elenco: Kelly Macdonald, Billy Connolly, Emma Thompson, Julie Walters e Robbie Coltrane

Dublagem: Manu Gavassi (músicas), Luciano Szafir, Murilo Rosa e Rodrigo Lombardi

 

Sobre o autor
Márcio L Santos

Márcio L Santos

Jornalista, consultor na área de comunicação, critico de cinemas nas horas vagas e cinéfilo desde sempre.

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