Crítica | As Aventuras de Agamenon, o Repórter

Crítica | As Aventuras de Agamenon, o Repórter

Um filme sobre um repórter de vida obscura, com a participação de algumas celebridades reais, recheado de piadas machistas e escatológicas, com um humor politicamente incorreto, cenas bizarras de sexo e uma total falta de sutileza. Quando bem feito, você tem algo chamado Borat. Quando mal feito, porém, você tem As Aventuras de Agamenon, o Repórter.

Baseado no personagem criado por Marcelo Madureira e Hubert que, há mais de 20 anos, escreve uma coluna semanal para o jornal O Globo, o filme conta as peripécias do jornalista Agamenon Mendes Pedreira, desde sua infância até sua vida adulta, num misto de documentário e ficção. Não é difícil perceber que as principais referências para o filme são Forrest Gump, de Robert Zemeckis e Zelig, de Woody Allen. Ao contrário destas obras, porém, o filme de Victor Lopes tem uma ambição artística bem menor, limitando-se a produzir uma série de esquetes sem ligação nos quais vemos o repórter interagir com diversas figuras da história mundial e participar de outros tantos eventos paralelos.

Narrado por Fernanda Montenegro e com o depoimento de diversos nomes de respeito do meio artístico e político (que provavelmente participaram por amizade e sem ler o roteiro) como Jô Soares, Nelson Motta, Fernando Henrique Cardoso (!), Ruy Castro, Caetano Veloso e Susana Vieira, o filme não faz questão de fugir ao estilo de humor consagrado pelo programa de televisão Casseta e Planeta: piadas de duplo sentido (o bunker da Eva Braun, a invasão da Normandia, ‘para garantir o furo, tive que dar meu furo’), trocadilhos infames (como o famigerado médico Jacinto Leite Aquino Rêgo), paródias musicais (o execrável funk dos aliados e a versão divertidinha de O Pato) e gracinhas auto-explicativas, como no momento em que Agamenon vai para a guerra e se despede da sua esposa, que está cercada pelo leiteiro, pelo bombeiro, pelo padeiro, pelo encanador e pelo mecânico, entre outros. Imaginando que o público não tenha capacidade de entender a sutileza da cena, o roteiro faz com que a esposa (Luana Piovani, que assume o papel de gostosona deixado por Maria Paula, investindo até num registro de voz idêntico ao da ex-casseta) avise que tudo ficará bem, já que o leiteiro, o bombeiro, o padeiro, o encanador e o mecânico estão a seu lado.

O tom farsesco e a crença de que o público é incapaz de acompanhar as piadas e a narrativa fragmentada do filme (isso, que nem em Cidadão Kane) faz com que os produtores invistam em algumas soluções que, se a princípio podem até parecer divertidinhas, tornam-se irritantes ao longo da projeção, como o tique nervoso do protagonista, colocado com o único objetivo de deixar bem claro que tanto Marcelo Adnet como Hubert estão fazendo o mesmo papel. Prejudicado ainda por uma dentadura mal posicionada, Marcelo Adnet não tem a menor oportunidade de mostrar seu talento como comediante. Hubert, por sua vez, assim como sempre fez no programa de televisão, recitando seus diálogos como se estivesse falando com um bando de pessoas com problemas de audição.

Os poucos momentos em que o filme consegue sair do lugar comum, ainda, revelam-se nada mais que reciclagens de momentos bem melhores feitos por pessoas bem mais talentosas, como a esperta animação com os quadros de Debret e a caricatura de Camilla Parker-Bowles  (coisa que o Monty Python já fazia em meados dos anos 60 ), a tarja cobrindo os órgãos sexuais dos alemães (tirada de Borat) e a eleição do papa João Paulo II, transformada em uma luta livre, com direito a ringue e torcida (é, coisa que o Monty Python também já fez), uma piada que até poderia funcionar se não fosse esticada ao extremo. Aí encontra-se outro problema do filme.

Com pouca experiência no gênero e com conhecimento menor ainda do que seja o ritmo de uma comédia, o diretor Victor Lopes coloca-se a mercê do roteiro dos ex-cassetas, prolongando momentos que poderiam render algumas risadas se fossem editados de maneira mais econômica, como o interminável discurso do doutor Jacinto Leite Aquino Rêgo (não acredito que estou escrevendo isso de novo) e a piada com o escândalo de Ronaldo e os travestis que, após a ótima surpresa inicial, perde-se por conta de  incontáveis minutos nos quais se fica discutindo quantas bolinhas ele estava batendo no quarto do motel.

Filmado em sua maior parte em locações, o filme investe constantemente em planos fechados e fundos sem iluminação na tentativa de que o público não perceba que todo o orçamento da produção foi para os (sejamos sinceros) excelentes efeitos visuais – que colocam o protagonista Agamenon lado a lado com  personagens como Einstein, Gandhi, Bin Laden, Hitler, Churchil, entre outros – incluindo aí variações na velocidade, no formato e na granulação dos filmes originais.  Ainda assim, estas montagens não representam nada que qualquer espectador já não tenha visto em filmes como Forrest Gump e Zelig. De novo.

Contando ainda com tentativas de humor politicamente incorreto com tragédias como o 11 de Setembro e o Tsunami (sem utilidade nenhuma para a história) e com um erro crasso de montagem na conclusão do filme (a trama começa com Agamenon dando tiros em um bar por achar que está sendo perseguido, fato este que é completamente esquecido ao longo do filme), As Aventuras de Agamenon, o Repórter consegue a façanha de ser, em seus oitenta e quatro minutos, menos engraçado do que a participação de cinco minutos de Moacyr Franco em O Palhaço. E isso não é um elogio.

 

Trailer | As Aventuras de Agamenon, o Repórter

Trailer | As Aventuras de Agamenon, o Repórter

Nova incursão de ‘parte’ do Casseta e Planeta no cinema, As Aventuras de Agamenon,o Repórter conta a história do fictício jornalista que escreve ‘diariamente’ todos os domingos em O Globo. Achou o trailer engraçado, divertido e com um humor inteligente? Não? Pois é, imagine agora 90 minutos disso dentro de uma sala de cinema.

O filme estreia dia 06 de janeiro. Aguarde a crítica. Ela vai ser tão engraçada quanto esse trailer.