Crítica | Homem de Ferro 3

Crítica | Homem de Ferro 3

Homem de Ferro 3. Mas também pode chamar de Tony Stark: Marcado para a Morte. Ou Um Milionário na Mira dos Assassinos. Não importa. O que fica claro neste terceiro filme do super-herói metalizado da Marvel é que há cada vez menos espaço para o alter-ego de Tony Stark em seu próprio filme.

Ao colocar o foco quase que exclusivamente sobre os devaneios, dramas e agruras do excêntrico milionário, os produtores investem com segurança naquilo que é o elemento mais forte e de maior empatia com os espectadores: a atuação magnética de Robert Downey Jr., cada vez mais à vontade em seu papel. O que é muito bom. Mas que também carrega a sua dose de problemas.

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Crítica | O Espetacular Homem-Aranha

Crítica | O Espetacular Homem-Aranha

É inevitável assistir a O Espetacular Homem-Aranha sem uma incômoda sensação de déja vu. E não é sem motivo.

Pouco menos de 5 anos após o sofrível Homem-Aranha 3 e exatos 10 anos após o ótimo Homem-Aranha, a Sony se arrisca a lançar um reboot da saga consagrada por Sam Raimi, a mesma que praticamente eternizou Tobey Maguire como o herói aracnídeo. Uma aposta arriscada, mas não totalmente incompreensível, dados os números espantosos de bilheteria dos três filmes ao longo dos últimos anos.

Por isso mesmo, é uma pena que, no intuito de manter a nova obra o mais reconhecível e familiar possível, os produtores tenham optado não por uma nova visão ou um novo conceito para o filme do Aranha – algo que Chris Nolan fez com assustadora eficiência em Batman Begins -, mas em uma repetição pura e simples de todos os elementos vistos no filme de Raimi, com algumas pequenas e quase imperceptíveis mudanças. Segurança aqui é a palavra-chave. E uma certa covardia também.

Justiça seja feita, porém: a primeira metade do filme, mesmo que absolutamente previsível e redundante, funciona até bem. Mas o jeitão de produto requentado é indissolúvel.

Para disfarçar que estão contando a mesma história novamente, os roteiristas James Vanderbilt (de Zodíaco), Alvin Sargent (Homem-Aranha 2) e Steve Kloves (Harry Potter) colocam em primeiro plano um mistério que envolve os pais de Peter Parker (uma boa ponta de Embeth Davidtz e Campbell Scott) e a sempre obscura companhia Oscorp (não por acaso localizada no edifício mais sinistro de Nova Iorque), plot que acaba se revelando totalmente desnecessária e inconclusiva. Assim como em Prometheus, muito mais uma promessa de marketing a ser concluída numa possível continuação do que um ponto relevante para a trama – um hábito, aliás, constante nas novas produções, incapazes de concluir sua trama em um único filme.

O resto você já conhece e já viu antes: a criação pelos tios, o bullying na escola, a paixão pela garota mais bonita, a picada da aranha geneticamente alterada, a morte do Tio Ben, a promessa de usar seus poderes para ajudar os outros e o cientista amigo que eventualmente se transforma no vilão. Blá, blá, blá. Sim, tem até a briga com Flash Thompson, o esquecimento de um compromisso com os tios e a conversa sobre poderes e responsabilidades.

Apesar de tudo isso, o diretor Marc Webb (do simpático 500 Dias com Ela)  consegue estabelecer um contexto muito mais realista e menos colorido do que no filme original de 2002 – sai a grotesca teia orgânica, por exemplo, e entram os lançadores de teia. Sai, também, o garoto simpático e meio bobão e entra um jovem introspectivo, tímido e sensível que faz questão de fotografar com uma máquina tradicional, tem em seu quarto o poster do filme Janela Indiscreta e é um pequeno gênio na área tecnológica. Na busca pela resposta ao desaparecimento de seus pais, Peter Parker encontra o doutor Curt Connors, um antigo colega de seu pai, com o qual começa a trabalhar em experimentos genéticos.

Neste ponto, Andrew Garfield (de A Rede Social) faz um trabalho de qualidade – mesmo que constantemente sabotado pelo roteiro – trazendo uma fragilidade e uma carência interessantes ao personagem, principalmente quando passa a usar seus poderes não para se divertir, mas para descarregar sua raiva e suas frustrações. E mesmo que Garfield já tenha 28 anos, dois a mais do que Maguire no primeiro filme, sua versão como adolescente convence muito mais.

Do mesmo modo, Emma Stone (a melhor coisa do filme) cria uma Gwen Stacy absolutamente adorável – a garota pela qual todo rapaz é capaz de se apaixonar – com um visual que remete diretamente aos quadrinhos clássicos de John Romita nos anos 60, com a dose certa de doçura e impetuosidade. Sua relação com Peter Parker soa, neste caso, efetivamente verdadeira – fator esse ampliado pela ótima química do casal, capaz de transmitir em poucos minutos o que jamais havia sido visto nos filmes de Raimi.

Não por acaso, um dos momentos mais autênticos do filme é justamente o flerte inicial do casal, no qual ambos hesitam na hora de completar suas frases, incapazes de revelar seus sentimentos, mas cientes da inequívoca atração mútua. Esta sequência, que termina com Peter andando de skate e testando seus poderes ao som da música da banda Coldplay é, por outro lado, a prova cabal de que Mark Webb entende muito de romances descolados e situações engraçadinhas, mas não tem noção do ritmo exigido para um filme deste gênero, tornando a obra, muitas vezes, em uma experiência simplesmente entediante a partir de sua segunda metade.

A inexperiência de Webb para cenas de ação faz com que os conflitos entre o Aranha (com poses e movimentos clássicos  dos comics) e o vilão Lagarto jamais ultrapassem o lugar-comum já visto em qualquer outro filme de super-heróis, soando tristemente repetitivas. Não há, aqui, nada remotamente próximo da eletrizante sequência do trem de Homem- Aranha 2.

Considerando a evolução dos efeitos visuais nos últimos anos, isso se torna ainda mais complicado, principalmente pelo visual artificial do Lagarto, um vilão sem carisma que jamais soa vagamente perigoso ou interessante. Uma prova de que simplesmente emular os quadrinhos (novos ou antigos) não significa qualidade.

Para completar, os furos e as situações inverossímeis – algo que Sam Raimi escondeu tão bem no primeiro Homem-Aranha - acabam por se torna gritantes nesta nova versão. Entram neste quesito a cruzada envolvendo o assassino de Tio Ben e sua tatuagem no pulso (que é completamente esquecida ao longo do filme), o destino do executivo indiano (que faz questão de recapitular toda a trama do filme em determinado momento), o plano genérico do vilão Lagarto, o local de estágio de Gwen Stacy e a inapetência da polícia, mais preocupada em caçar o Aranha do que o calango gigante que está destruindo a cidade.

Nada bate, porém, uma sequência envolvendo gruas que, com um diretor mais talentoso e uma montagem menos óbvia, poderia até ser o grande momento do filme, mas que, como está, torna-se irremediavelmente constrangedora e sem nenhuma lógica para existir. É o momento ‘mexeu com o Aranha, mexeu com Nova Iorque‘ da produção.

Por mais paradoxal que seja, ao mesmo tempo em que criam sacadas interessantes (como fazer o Aranha um herói falastrão e irreverente igual ao dos quadrinhos) os roteiristas cometem erros imperdoáveis. O maior deles reside na personalidade de Peter Parker, que não apenas mostra-se um jovem desonesto (literalmente roubando o mecanismo para seu lançador de teias) como presunçoso ao utilizar seu segredo para conquistar Gwen Stacy.

Embora a proposta seja justamente mostrar o aprendizado e o amadurecimento de Parker ao longo do filme, estas escolhas enfraquecem o personagem frente ao público, que acaba torcendo naturalmente pelo herói, mas não pelo rapaz que está atrás da máscara.

Não que isso também faça muito diferença. Desconsiderando qualquer preceito básico referente a identidades secretas – e provavelmente visando às fãs de Andrew Garfield – o Homem-Aranha aqui revela sua identidade a cada cinco minutos, seja para uma criança num carro em chamas (uma cena perigosamente piegas), para um grupo de assaltantes ou para toda uma força policial. Já imaginava o momento em que Parker convocaria uma coletiva de imprensa apenas para, assim como Tony Stark, afirmar “Eu sou o Homem-Aranha”.

Da parte dos veteranos, Martin Sheen surge perfeito como o Tio Ben, numa composição emotiva que faz com que seu assassinato soe ainda mais trágico do que o esperado. Rhys Ifans surpreende como um homem amargo e ressentido que dedica toda a sua vida à pesquisa sobre a regeneração de membros, sacrificando mais do que simples horas de trabalho. Já Sally Field surge num papel ingrato e pouco aproveitado. Dennis Leary, como o capitão Stacy (sim, pai de Gwen) também entrega uma boa interpretação, igualmente sabotada pelo roteiro no decorrer do filme.

A direção de arte se equilibra entre as boas ideias (como o apertado e sempre aconchegante lar dos tios de Peter) e as soluções usuais (com laboratórios e instalações já vistas à exaustão na série do Homem de Ferro). Já a fotografia de John Schwartzman (de Uma Noite no Museu) investe nos planos fechados (quando trata de Peter e Gwen) e trabalha de maneira eficaz os grandes espaços de Nova Iorque, embora, nitidamente, não tenha a expertise de como filmar em 3D (somente, claro, em duas ou três cenas em que assumimos o ponto de vista do herói, o que, convenhamos, é muito pouco).

A trilha sonora sem inspiração de James Horner (regurgitando os mesmos temas que usa desde A Ira de Khan) é incapaz de envolver o espectador no clima desejado pelo filme, não entregando nem um tema poderoso quanto, por exemplo, o de O Cavaleiro das Trevas e nem uma trilha heróica e divertida como a de Vingadores. Até mesmo a manjada cena final em que o Aracnídeo voa pela cidade empalidece frente à mesma cena feita, acreditem, há dez anos.

Reciclando ideias sem ao menor pudor, o filme chega ao absurdo de se utilizar exatamente do mesmo recurso trabalhado com o Duende Verde de Willem Dafoe, fazendo com o que o vilão converse com sua personalidade malévola antes de levar a frente seus planos de dominar o mundo. Ou coisa parecida.

Apesar do bom elenco, de Emma Stone e da boa produção, a sensação com que se fica, ao fim de O Espetacular Homem-Aranha, é exatamente esta: um produto reciclado e sem imaginação –  feito por um diretor deslocado que não consegue compreender a dualidade existente em qualquer filme de super-heróis, o equilíbrio exato entre realidade e fantasia – que resulta em um filme que soa tão irrelevante quando o filme do Demolidor protagonizado por Ben Affleck.

Dá para uma sessão da tarde. E olhe lá.

PS: como em todo filme da Marvel, há uma cena entre os créditos.

 

The Amazing Spider-Man

EUA – 2012

Ação – 136 minutos

Direção: Marc Webb

Roteiro: James Vanderbilt, Steve Kloves e Alvin Sargeant

Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Dennis Leary, Rhys Ifans, Martin Sheen, Sally Field

 

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