Crítica | Sete Dias com Marilyn

Crítica | Sete Dias com Marilyn

Que fique claro. Sete Dias com Marilyn não é uma biografia da estrela norte-americana falecida em em 1962. Trata-se, com propriedade, de um recorte de um período da vida de Marilyn – mais especificamente, quando voou para Londres para as filmagens de O Príncipe Encantado, em 1957. O que temos de Marilyn é o ponto de vista do jovem Colin Clark, cujo relacionamento com a estrela foi posteriormente revelado no livro Minha Semana com Marilyn, no qual se baseia o filme dirigido por Simon Curtis. Protagonizado por Michelle Williams, o filme, apesar do tom francamente romântico, não traçar um retrato muito favorável da instável – e adorável – estrela. Talvez, por isso mesmo, resulte em um experiência que, se é memorável pela atuação assombrosa de Willams, deixa um estranho gosto amargo na boca ao fim de sua projeção.

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Crítica | A Separação

Crítica | A Separação

Vencedor do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, A Separação, do diretor iraniano Ashgar Farhadi, é um daqueles filmes que parte de uma história até banal para nos presentear com uma reflexão poderosa sobre temas universais relacionados à família, à responsabilidade e à verdade. Na visão de Farhadi, a busca pela verdade incondicional pode levar a consequências trágicas, não tanto pelo desejo de afirmá-la como íntegra, mas porque, muitas vezes, deixa-se de enxergar a verdade daqueles que estão ao nosso lado como autêntica e buscamos somente transformar a nossa em única e absoluta.

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Crítica | A Invenção de Hugo Cabret

Crítica | A Invenção de Hugo Cabret

Martin Scorsese é com certeza o mais cinéfilo dos cineastas americanos. Seu amor pelo cinema e por sua história só é comparável com o seu excepcional talento como contador de histórias. Em A Invenção de Hugo Cabret, Scorsese une estas duas características em uma obra que, ao mesmo tempo em que difere totalmente de qualquer projeto anterior do cineasta, se coloca imediatamente como uma belíssima representação de todo o trabalho de uma vida em prol da preservação não apenas da memória, mas, principalmente, da magia do cinema.

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Silêncio dos Inocentes: 20 anos depois

Silêncio dos Inocentes: 20 anos depois

O Silêncio dos Inocentes completa 20 anos em 2011. Visto pelos olhos de quem cresceu com o filme, pode parecer que a obra era uma aposta certeira da falecida produtora Orion. Afinal, contava com Anthony Hopkins em um papel inesquecível e Jodie Foster perfeita como a novata agente do FBI que caçava um serial killer.

A verdade, porém, é que Silêncio dos Inocentes tinha tudo para dar errado. Em 1991, Anthony Hopkins era um ator a caminho do ostracismo, cujo último filme relevante havia sido Nunca te vi, Sempre te amei, de 1987. Jodie Foster, apesar de já ter ganhado um Oscar por Acusados em 1988, estava longe de ser um chamariz de bilheteria. E o diretor Jonathan Demme era mais conhecido por comédias como De Caso com a Máfia (1988) e Totalmente Selvagem (1986). Além disso, serial killers ainda não eram interessantes para o público em geral.

Ao contrário do que se esperava, porém, Silêncio dos Inocentes foi aos poucos conquistando público e crítica em todo o mundo, tornando-se, alguns meses após o lançamento,  o terceiro filme na história do cinema a vencer os 5 prêmios principais da Academia (filme, diretor, ator, atriz e roteiro). Anteriormente, apenas Aconteceu naquela noite (1934) e O Estranho no Ninho (1975) haviam conseguido essa façanha.

Baseado no livro homônimo de Thomas Harris, o filme conta a história de Clarice Starling, estudante do FBI que recebe a missão de entrevistar o mais perigoso dos serial killers, Hannibal Lecter – também conhecido como Hannibal, o Canibal, pelo hábito nefasto de comer suas vítimas. O objetivo deste contato é, na verdade, obter informações que possam levar à captura de Buffalo Bill, assassino que já havia matado 5 garotas. Clarice é então chamada para lidar com este caso, mantendo contatos constantes com Lecter,que a ajuda a compreender como funciona a mente de um assassino.

Jonnathan Demme conta essa história a partir de uma opção artística arriscada: praticamente todos os diálogos são filmados com a câmera fechada sobre o rosto dos atores, com estes encarando diretamente o espectador, de forma que a atenção esteja completamente dirigida aos seus olhares e às suas reações. Um exemplo perfeito dessa técnica aparece no primeiro encontro entre Clarice e Lecter. De modo a ilustrar que o contato com o serial killer será uma literal descida ao inferno, vemos a agente do FBI descer por escadas e passar por corredores até chegar em uma ala que mais lembra uma prisão medieval, sensação essa reforçada pela fotografia opressiva de Tak Fujimoto.

Ao contrário dos outros presos, Lecter vive numa sala com uma parede de vidro, de modo a evitar qualquer contato com outras pessoas. Nestes poucos minutos de conversa, Anthony Hopkins consegue demonstrar o quão brilhante e perigoso é seu personagem, capaz de sentir o perfume usado por Clarice (não naquele dia) e reconhecer suas fraquezas de modo a humilhá-la sem piedade. As reações de Jodie Foster às provocações do assassino mostram os sentimentos conflitantes da agente, num misto de dor, raiva e admiração. Constantemente deslocada em seu ambiente, a Clarice interpretada por Jodie Foster nunca está à vontade, evitando quaisquer olhares ou toques mais íntimos. Ao mesmo tempo, está sempre ajustando suas roupas, visando nitidamente passar a melhor imagem a seus superiores, em especial ao diretor interpretado por Scott Glenn.

A relação entre Lecter e Starling  é que dá o tom do filme. Para Lecter, pela primeira vez ele encontra alguém que não tem medo em dividir seus medos, seu passado e seus pensamentos com ele. Para Starling, o desafio de aprender com alguém ao mesmo tempo tão fascinante quanto perigoso  – e uma oportunidade para se conhecer ainda melhor. Fugindo do esquema de jogos psicológicos baratos, os encontros entre Clarice e Lecter são sempre instigantes, e é fascinante ver dois atores cientes de seu talento se entregando desta maneira a seus papéis.

O filme não hesita em apresentar a identidade do assassino logo em sua meia hora inicial. Interpretado por Ted Levine, o assassino não é uma figura repugnante, apesar de toda a violência infligida às suas vítimas, mas sim uma figura digna de pena, cujo pensamento distorcido o leva a praticar aqueles atos inomináveis.  Neste ponto, o filme prima pelo realismo com que trata os crimes e as vítimas do serial killer. Numa sequencia fundamental,  chegamos a sentir o cheiro em uma cena , graças a elementos narrativos como o ato dos agentes em passar Vick Vaporub nas narina quando da exumação de uma das vítimas de Bill.

Para contar sua história, o diretor Demme conta com a ajuda de um grupo de atores que estão sempre presentes em suas obras, como Charles Napier,  Tracey Walter, Paul Lazar e o diretor Roger Corman, entre outros, que apareceriam posteriormente em obras como Filadélfia e até o mais recente O Casamento de Rachel. Mas é de Anthony Hopkins que Demme arranca a interpretação definitiva para Hannibal Lecter (que já havia sido interpretado anos antes por Brian Cox em Manhunter, de Michael Mann, refilmado depois como Dragão Vermelho, por Brett Ratner). Com total consciência de que tinha em suas mãos um papel especial, Hopkins se delicia como o assassino de gosto refinado e que, mesmo após assassinar dois policiais, ainda encontra tempo para terminar de ouvir sua sinfonia favorita.

Ao longo do filme, Lecter aparecer por (acreditem) apenas 18 minutos, mas sua personalidade está tão presente e tão marcante no filme que temos a impressão de que este tempo é muito maior. Posteriormente Anthony Hopkins voltaria a viver o assassino em duas outras produções, que infelizmente não chegaram as pés deste filme.

Mesmo nos momentos em que tenta deliberadamente enganar o espectador ( e isso ocorre pelo menos duas vezes), o roteiro de Ted Tally é preciso em sua narrativa, limpando muito do exagero e das subtramas políticas da obra original, criando um filme tenso e violento, embora, como o posterior Se7en ,  nunca se fixe ou mostre os assassinatos detalhadamente. Uma cena que exemplifica essa elegância narrativa ocorre na sequencia em que Lecter escapa. Após derrubar um dos guardas, Lecter se aproxima do outro com o cassetete e o acerta repetidas vezes. Jamais vemos o policial caído, apenas a camisa de Lecter que vai aos poucos se manchando de sangue.

O filme guarda para seu clímax, ainda, o que considero uma das melhores seqüências já criadas, no momento em que Clarice chega à casa do serial killer Buffalo Bill e vai, aos poucos, tomando consciência de que ele é realmente o assassino. Simultaneamente, ele percebe que foi descoberto e que todo o seu plano insano está chegando ao fim. É uma cena  maravilhosa, que joga na tela todos os evidências que o espectador foi juntando ao longo do filme, mas que para Clarice somente naquele momento se tornam claras. Contribui, e muito, para esse clima do filme a trilha sonora de Howard Shore (compositor preferido de Cronenberg e Peter Jackson),  climática e evitando o clichê de crescer demais nos momentos de tensão,

Vinte anos depois e dezenas de filmes similares depois (dentre os quais apenas Se7en merece destaque), o Silêncio dos Inocentes continua até hoje como um mergulho assustador na natureza humana,  um contato com um lado sombrio que podemos até  admirar, por tão fascinante que é,mas que queremos que fique sempre do lado de lá da tela.

5/5