Acervo | A Mosca da Cabeça Branca (1958)
A primeira versão do conto de George Langelaan para o cinema não envelheceu bem. Apesar do charme dos efeitos de maquiagem que transformam o cientista vivido por David Hedison (na época Al Hedison) em um homem com uma cabeça de mosca gigante, A Mosca da Cabeça Branca é um filme irregular, incapaz de envolver o espectador no clima de angústia que a trama tanto necessita.
Acervo | A Mosca 2 (1989)
Uma das continuações mais equivocadas da história do cinema, A Mosca 2 surpreende por ser um filme com um belo potencial, mas realizado de maneira absolutamente canhestra.
Review | Sentidos do Amor
A ideia que possamos perder, aos poucos, cada um de nossos sentidos, é, no mínimo, aterradora. Esta é a premissa que define Sentidos do Amor, o novo filme do cineasta David Mackenzie.
Review | Mientras Duermes (2011)
Mientras Duermes (Enquanto Você Dorme) é um eficiente suspense psicológico do diretor Jaume Balagueró (de REC), que aqui abandona o terror explícito e investe numa trama sobre um zelador (o interessante Luís Tosar, de Lope) obcecado por Clara (a bela Marta Etura), uma jovem moradora do pequeno condomínio em que trabalha.
Review | Martha Marcy May Marlene
Elizabeth Olsen é a irmã mais nova das gêmeas Olsen. Elizabeth Olsen é também a alma do filme independente Martha Marcy May Marlene, uma das obras mais interessantes do ano passado. Com uma atuação absolutamente hipnotizante, Elizabeth Olsen interpreta uma jovem que foge de uma seita religiosa na qual viveu por dois anos e tenta reconstruir sua vida ao lado de sua irmã (Sarah Paulson), que vive com o marido (Hugh Dancy) em uma casa afastada próxima a um lago.
Review | Um Dia
Dexter e Emma ficaram juntos a primeira vez no dia 15 de julho, em meados dos anos 80, data de sua formatura na faculdade. Jovens e cheios de sonhos. Duas pessoas supostamente feitas uma para a outra mas que, por conta de inúmeros desvios e escolhas pessoais, raramente encontravam-se em sintonia. Para narrar esta história a diretora Lone Scherfig faz com que nos encontremos com estes dois personagens sempre no mesmo dia 15 de julho, ao longo de mais de 20 anos.
Crítica | A Chave de Sarah ***
Em 1942, oficiais franceses arrancaram cerca de 10 mil judeus parisienses de suas casas e os colocaram em condições desumanas no velódromo da cidade – conhecido como Vel’ d’Hiv – antes de deportá-los para campos de concentração no interior do pais, nos quais maridos, esposas e filhos eram separados para deportação para os conhecidos campos de extermínio na Alemanha e na Polônia. Uma das páginas mais vergonhosas da história francesa, este fato serve de ponto de partida para o interessante A Chave de Sarah, do cineasta Gilles Paquet-Brenner.
Baseado no livro homônimo da escritora Tatiana De Rosnay, o filme mostra a história da pequena Sarah Starzynski que, na iminência de ser expulsa de seu apartamento e levada pela polícia francesa junto com sua família, decide esconder seu irmão menor em um armário do quarto, na esperança de logo retornar e tirá-lo em segurança do local. Levando consigo a chave do armário, Sarah tem agora como único objetivo conseguir retornar a Paris e salvar seu irmão.
Ao mesmo tempo, somos trazidos aos dias de hoje e apresentados à Julia Jarmon (Kristin Scott Thomas, sempre uma atriz admirável), jornalista americana que mora há 25 anos em Paris e que está prestes a iniciar uma reportagem justamente sobre os fatos ocorridos em julho de 1942. Numa destas coincidências que devem ser relevadas para o bem do filme, Julia descobre que o antigo apartamento para o qual vai se mudar, da família de seu reticente marido Bertrand, pertencia anteriormente à família de Sarah, cujo destino o espectador irá descobrir paralelamente no decorrer da projeção.
Como toda obra que trata dos terrores do Holocausto, é preciso muita sensibilidade para não transformar o filme em um espetáculo melodramático, o que o tema, infelizmente, permite. O diretor Paquet-Brenner, porém, aprendeu bem as lições de Spielberg e Polanski, suas referências visuais mais claras. As cenas passadas no velódromo e no campo de concentração possuem toda a carga dramática esperada de uma tragédia anunciada. Assim, quando vemos que as pessoas cometiam suicídio ou se desesperavam por estar presas em um lugar sem a mínima condição de higiene, sabemos que, na maioria dos casos, estas eram as únicas opções restantes. Do mesmo modo, quando vemos o olhar lançado por Sarah a sua vizinha, entendemos que, mesmo pequena, a jovem estava acostumada a viver em constante tensão e medo.
Quando o foco da narrativa está em Sarah (a novata Melusine Mayance, atuando de maneira estupenda), o filme oferece uma experiência impactante. Os esforços da menina em retornar de qualquer maneira à Paris, mesmo após ser separada de seus pais, é algo tocante. Na inocência e na ingenuidade de seus 10 anos, basta fugir pelo campo e contar com a complacência de seus algozes para conseguir seu objetivo. É de se perguntar, entretanto, se a trajetória da pequena Sarah realmente é aquela descrita pelo filme ou se o que é visto em tela é apenas a sua interpretação dos fatos, tendo em vista a aventura quase juvenil pela qual ela passa.
Rico em simbolismos, o filme abre com uma bela cena na qual Sarah e seu irmão Michel brincam embaixo do lençol, representando o último momento de alegria e felicidade que a menina terá por um bom tempo. Da mesma maneira, quando a jovem que se oferece para ajudar a família vai embora sem levar a chave que poderá salvar o irmão de Sarah, temos ali o último resquício de esperança se esvaindo aos poucos. Não por acaso, a chave em si acaba revelando muito mais significados do que apenas a liberdade de seu irmão. Para Sarah, a chave representa a possibilidade de um novo começo, como se fosse possível apagar toda a tragédia que irrompeu em sua vida. Por meio dela, Sarah busca recuperar não apenas seu irmão, mas sua vida levada pela guerra e pela intolerância. E, mais na frente, a chave será essencial para desvendar não apenas os fatos relativos à Sarah, mas entender quem ela foi e o que ela se tornou.
Justamente pela força da história de Sarah, é uma pena que, a partir do terço final, o filme resolva deslocar seu foco de interesse para a história da personagem de Scott Thomas, cujo drama maior será decidir se tem ou não um filho agora que está entrando em seus quarenta anos e se fica ou não com seu marido. E, provavelmente por conta da estrutura original do livro, à medida que a jornalista vai conhecendo a história de Sarah, menor é o espaço dado à sua trajetória, chegando ao fim do filme quase como uma personagem secundária.
Finalizando ainda com algumas situações bem inverossímeis, como a súbita recuperação do velho patriarca e um suposto futuro relacionamento para a jornalista, objetivando criar a sensação de final feliz, o filme ainda assim merece destaque por trazer à tona mais um episódio terrível da 2ª Guerra Mundial, mostrando, mais do que nunca, que a omissão ainda é uma das armadilhas mais terríveis em que uma nação pode cair num momento de conflito.
3/5
Review | Dexter 6X07 – Nebraska
A grande surpresa do episódio anterior foi o retorno do irmão de Dexter, o famoso Ice Truck Killer. Não em carne e osso, obviamente, mas tomando momentaneamente o lugar de Harry em sua mente ligeiramente perturbada. Afinal, se Harry sempre garantia a Dexter a obediência ao código e uma certa coerência, a presença de seu irmão mostra justamente o contrário: livre da obrigação e do peso de tentar buscar uma redenção – evidenciada pela morte do assassino do irmão Sam – ele pode agora entregar-se a seu Dark Passenger sem a necessidade de uma justificativa. Ou pelo menos é isso que ele imagina.
Outra novidade jogada pelos roteiristas logo no início do episódio é o suposto retorno de Trinity (que desde o início sabemos não ser possível, claro), mas que joga Dexter numa divertida viagem pelo interior dos EUA, na companhia agora constante de seu irmão. A inclusão do irmão na trama parece também querer dar continuidade à tese que o professor Geller nada mais é do que uma criação da mente de Travis. E, como havíamos dito na review anterior, pouco diferencia Travis de Dexter em termos de loucura. O que os separa é apenas o entendimento desta realidade.
É assim que temos Dexter aproximando-se de Jonah, filho de Trinity, o possível novo serial killer. A busca pela verdade parece chegar a Dexter muito mais como uma constatação de que, num futuro incerto, será difícil afastar o Dark Passenger de Harrison, do que uma autêntica busca por um assassino. E nesta viagem em que nada é o que parece, o ponto mais interessante é justamente quando Dexter se hospeda numa versão hillbillie do Bates Motel – não por acaso gerenciada por certo Norm, que por sua vez possui um segredo guardado em seu terreno.
Enquanto isso, em Miami, Debra continua sendo pressionada para resolver o caso dos assassinos do apocalipse, contando ainda com a a presença sempre desagradável de La Guerta, cuja participação nesta temporada não poderia ser classificada menos do que nula. Um outro detalhe interessante é o estagiário de Masuka, que desta vez cria uma espécie de video game do departamento. Saber se isso terá alguma relevância ou não é conversa para outro post. Por outro lado, os atos da dupla Geller/Travis tendem a tornar-se ainda mais insanos nos próximos episódios, e a relação entre eles (seja quem seja real) parece definitivamente caminhar para um embate trágico.
Episódio assumidamente filler – afinal, ainda faltam 5 episódios para a conclusão desta temporada – Nebraska destaca-se por apresentar um viés diferente a que estamos acostumados em Dexter. Mesmo trazendo seu irmão como companheiro/sidekick em suas aventuras, o episódio nos mostra que, por maior que seja o desejo e o impulso de ser um assassino sem amarras, Dexter é o que é justamente pelo que viveu e aprendeu com seu pai Harry. Assim, a bela cena final, quando Dexter novamente coloca seu pai em sua vida esclarece muito sobre a personalidade de nossa serial killer preferido.
Review | Dexter 6X04 – A Horse of a Different Color
Chegando quase à metade desta temporada, Dexter agora parece que entrou de vez nos eixos. Embora o medo de que os produtores possam fazer alguma besteira ainda não tenha se dissipado totalmente, as cartas que estão sendo jogadas mostram que há disposição de sobra para oferecer as mais sombrias possibilidades na trama dos assassinos do apocalipse (eu disse que esse nome era bom).
Mostrando mais uma vez que a fé, quando encarada de forma errônea, pode levar a atos indignos por parte do ser humano, o episódio desta semana nos mostra Dexter frente à frente com a questão da existência ou não de Deus – ou de qualquer outra divindade que o valha. Quando o irmão Sam sugere a Dexter que ‘entregue-se a algo maior que ele’, temos duas linhas de interpretação claras: colocando sua fé em algo imaterial, Dexter passa a colocar parte de sua vida nas mãos de algo que desconhece e perde o controle de suas ações para algo maior que ele ; por outro lado, enfrenta a realidade de que é um assassino e que suas ações serão, eventualmente, julgadas e condenadas. E, pior, de que esta será a lembrança e a imagem que ficará marcada para sempre em seu filho Harrison – ideia esta mostrada de forma brilhante pela história do irmão Sam e de seu pai. Mos Def, mais uma vez, nos traz uma interpretação repleta de sutilezas, como alguém que efetivamente foi ao inferno e retornou, com tudo de bom e de mau que há nessa trajetória.
Enquanto isso, a nova tenente Deb vai aos poucos pavimentando seu caminho como a escolha correta para o cargo, desviando de forma inteligente das ações da cada vez mais dissimulada La Guerta – e o colar emprestado não deixa dúvidas de que sua intenção era, literalmente, mantê-la na coleira pelo maior tempo possível. Quinn e Angel, por sua vez, mostram que, por conta da própria estrutura desta temporada, estão se tornando dispensáveis. Mesmo o alívio cômico do cigarrinho no carro de Quinn não ajudou muito. E, como sabemos, personagens dispensáveis na trama tendem, a qualquer minuto, a virarem personagens descartáveis. Não me espantaria se um deles fosse despachado ao longo da trama, principalmente pela entrada do novo investigador, que tem tudo para tomar o lugar de Quinn no já machucado coração de Deb.
Outro subplot resolvido rapidamente foi o da estagiária de Masuka. Ao descobrir que esta vendia evidências de casos antigos na Internet, nada restou ao profissional além de mandá-la passear, embora nada garanta, também, que isso não venha a ter outras consequencias no futuro.
Avançando cada vez mais na história dos assassinos do apocalipse – agora já temos um nome e um rosto para nossos assassinos. E se toda a história de mensagens apocalípticas fica um pouco na vala comum, vale a pista colocada de que tudo que ocorreu até agora se trata de um grande aperitivo. Novamente retornamos ao tema de que Dexter está à sombra de algo muito maior do que ele imagina.
Fica, ainda, cada vez mais evidente que o professor interpretado por Edward James Olmos é apenas fruto da imaginação de Colin Hanks. Se os produtores estão guardando isso para ser a grande surpresa da temporada, corre-se o risco de um tremendo anticlímax, pois qualquer espectador que tenha convivido com Tyler Durden nos últimos 10 anos já captou os evidentes sinais. Podemos também estar enganados e ele é totalmente real: isso sim seria uma surpresa.
Trazendo algumas das cenas mais chocantes de todas as temporadas, como a cena da autópsia e,em especial a cena final do anjo da morte, uma homenagem direta a cena do policial morto em Silêncio dos Inocentes, Dexter nos mostra mais uma vez que o assassino que acredita e que tem fé no que está fazendo é o pior de todos.


