Crítica | Tudo pelo Poder
O bastidores de uma fictícia disputa presidencial americana é o tema de Tudo pelo Poder, novo filme do ator e diretor George Clooney. Baseado numa peça de Beau Willimon chamada Farragut North, a obra de Clooney não mira apenas na questão política, mas discute com segurança elementos importantes como o idealismo, a lealdade e a decepção, tudo isso emoldurado por uma direção não menos que brilhante e com interpretações precisas de seu talentoso elenco.
Crítica | Assalto em Dose Dupla *
Não é fácil imaginar no que o diretor Rob Minkoff – que em seus bons tempos dirigiu filmes como O Rei Leão e a série do ratinho Stuart Little – estava pensando enquanto dirigia este Assalto em Dose Dupla. Escrito pela mesma dupla responsável por Se Beber Não Case e Eu Queria ter a Sua Vida, o filme parte de uma proposta totalmente inverossímil, mas que até poderia render boas idéias se fosse bem executada: o que pode acontecer quando dois grupos de assaltantes invadem o mesmo banco, na mesma hora?
Infelizmente, essa premissa inicial não sobrevive à direção totalmente equivocada de Rob Minkoff, que faz uma comédia em que não se dá uma risada (sequem um sorriso modesto nos lábios), um filme de assalto entediante e um suspense que ninguém tem o menor interesse em desvendar.
Protagonizado por Patrick Dempsey (exagerado ao extremo) e Ashley Judd (sempre linda, mas com uma atuação inócua), o filme mostra como os dois grupos de assaltantes têm de lidar com essa nem tão aleatória coincidência. Aconselhados por Tripp, o cliente maníaco-compulsivo interpretador por Dempsey, os dois grupos resolvem manter seus planos inalterados: uma equipe, mais organizada, buscará o conteúdo do cofre do banco, enquanto a outra, formada obviamente por uma dupla de desastrados, tentará levar o dinheiro dos caixas automáticos. E você leu corretamente: os assaltantes são aconselhados por um dos clientes. No meio do assalto, porém, inesperados assassinatos acontecem, e caberá ao cliente conselheiro descobrir o que está acontecendo, como os assaltantes entraram no banco e, principalmente, quem é a mente maligna por trás de todo esse plano.
O excesso de situações bizarras até seria aceitável se o tom de farsa a que o filme se propõe fosse bem orquestrado por Minkoff. O que se vê, porém, é um excesso de atuações supostamente engraçadas de um elenco deslocado, que não consegue acertar o tom em nenhum momento, prejudicado ainda por personagens estereotipados que vão desde a loura fatal até o segurança hispânico tarado e passando pelo assaltante de bom coração – e que não conseguem se definir se estão em um comédia parodiando o gênero dos filmes de assalto ou um filme de assalto bem-humorado. Acredite, isso é fundamental.
O ritmo propositalmente apressado do filme, além de tudo, ainda impede que o espectador consiga criar alguma identificação com qualquer personagem, transformando o filme em algo tão excitante de se ver quanto algum documentário de dinossauros da televisão por assinatura.
Para piorar a situação, Rob Minkoff demonstra uma total inapetência na criação das gags visuais que deveriam ser a base do filme. Assim, temos uma cena em que um dos assaltantes instala explosivos num caixa automático e se afasta para detoná-lo com segurança, em câmera lenta, o que destrói por completo a suposta surpresa que poderia vir desse momento. Na mesma situação, temos uma cena patética na qual Patrick Dempsey, após ser beijado por Ashley Judd (num romance forçado e fora de hora), entra em crise e passa a fazer um anjo de neve no chão da sala onde os reféns estão instalados.
Trabalhando ainda com uma série de flashbacks em preto e branco que buscam solucionar o mistério sobre o responsável pelo assalto, o filme conclui com um daquelas reviravoltas que deveriam mesmerizar o espectador, mas que apenas confirma a incrível perda de tempo que é assistir a este filme. Junto a Assalto ao Banco Central, Assalto em Dose Dupla pode se orgulhar de estar entre os piores exemplos do gênero em muito tempo.
1/5
Crítica | Happy Feet 2 : O Pinguim **
Quando foi lançado em 2006, Happy Feet era uma criativa opção para um público que estava acostumado às aventuras familiares da Pixar ou às (supostas) comédias da Dreamworks. Tendo como estrela Mano, um pingüim que não cantava - mas sapateava -, o filme encantou o público pela excelente mistura de musical e aventura ecológica. Não por acaso, o filme foi o vencedor do Oscar de animação daquele ano, batendo, sem muita dificuldade, os filmes Carros e A Casa Monstro.
Pois bem, longos cinco anos depois, o diretor George Miller ( que em outro século dirigia filmes como Mad Max) traz de volta Mano (no original, voz de Elijah Wood) e seus amigos em Happy Feet 2 , mas desta vez com a adição de um pequeno e fofíssmo filhote chamado Erik. Assim como o pai em outros tempos, Erik sente-se deslocado e estranho em seu próprio ambiente. Assim como toda criança, questiona tudo o que vê a seu redor. Afinal de contas, por que pingüins tem que ficar cantando ou dançando o tempo mesmo sem motivo? E, principalmente, porque a cada dez minutos tem que haver uma tomada aérea que mostra os mesmos pingüins cantando e dançando sem motivo?
Após um incidente embaraçoso, o pequeno Erik resolve fugir de casa e seguir, com mais dois amiguinhos, o pingüim descolado Ramon (voz de Robin Williams). É junto aos pingüins de Adélia que Erik encontrará Sven (voz de Hank Azaria), um curioso representante da raça que, inexplicavelmente, aprendeu a voar. Cheio de frases de efeito, Sven torna-se uma referência importante para o pequeno Erik. Caberá agora a Mano tentar reassumir seu papel como pai, levar os pimpolhos de volta para casa e ainda tentar salvar sua colônia, emparedada por uma imensa geleira desprendida da calota polar. Sim, o filme flerta levemente com a questão do aquecimento global e com suas possíveis consequencias para a vida selvagem. Não dá para ficar só cantando e dançando o tempo todo.
Apesar da premissa interessante, o filme derrapa justamente no desenvolvimento desta trama. O roteiro, escrito a oito mãos, estica de forma inexplicável uma série de sequencias desnecessárias e resolve de forma abrupta pontos importantes da história. Assim, se o resgate dos pingüins Imperador toma quase 40 minutos do filme, o subplot do tsunami é simplesmente esquecido pelo diretor – e pelo montador – , apesar de todo o tempo tomado no suspense de sua chegada. E o que dizer das desnecessárias cenas que mostram as gaivotas à espreita após o primeiro (e inútil) ataque aos pingüins? E se o filme derrapa na condução das cenas que supostamente deveriam alavancar a história, os diálogos também não ajudam, tornando-se tristemente patéticos. Com todos os possíveis e imagináveis clichês de livros de autoajuda, cada frase dita por qualquer pingüim é um grande ensinamento de vida (‘acredite em si mesmo’, ‘estar junto já é um lar’, ‘temos que recuar para seguir em frente’ e assim por diante), tornando o filme perigosamente próximo a uma sessão de terapia piegas e forçada.
Por conta desse clima de ‘juntos chegaremos lá’, mesmo os momentos de humor acabam se tornando ineficazes e repetitivos, como a tentativa de Ramon em conquistar a fogosa Carmen (Sofia Vergara, claro) e um suposto beijo de língua de Sven em Gloria (a cantora Pink), esposa de Mano. O alívio cômico – e supostamente filosófico – do filme surge por conta de dois krills, chamados Bill e Will (Matt Damon e Brad Pitt). Com o desejo de conhecer o que há além do seu cardume, os dois decidem conhecer o que o universo marítimo reserva para eles. A dupla é, no fundo, uma desculpa para que a equipe de efeitos especiais maravilhe a plateia com os mais belos efeitos especiais em terceira dimensão. Há um momento realmente admirável quando, ao final de uma música bem triste (e há várias no filme, até uma ária de Tosca cantada pelo pequeno Erik), somos apresentados a magníficas imagens da Terra e das luzes do Universo, que se mesclam posteriormente às cores vivas destas pequenas criaturas luminosas. É difícil, porém, não imaginar que estes dois personagens foram adicionados aos 44 minutos do segundo tempo quando do fechamento do roteiro, visto que sua existência não afeta em absolutamente nada a história. Algo como um Scrat com pensamentos sobre a existência, filhos e cantando músicas do Wham.
Tecnicamente impecável (o design das criaturas é fenomenal, assim como os cenários, que efetivamente transportam o espectador para algum lugar do pólo sul) Happy Feet 2 conta com uma trilha sonora que, se não empolga tanto quanto a do filme anterior, tem seus momentos de brilhantismo nas ainda ótimas coreografias de Wade Robson e sua equipe, como nas sequencias com a clássica Rawhide, a praieira Papa Oom Mow Mow, a dance Dragostea Din Tei (a versão original de Festa no Apê) e claro, na conclusão com Under Pressure, do Queen.
Se estivesse mais preocupado em contar uma história de forma eficiente e menos ocupado em passar lições de moral a cada cinco minutos, Miller provavelmente teria realizado um filme tão bom quanto o original. Do jeito que ficou, porém, é uma aventura ainda respeitável, mas que exagera demais na sacarina.
2/5



